Quando necessário

Mas o que constitui o fim de algo, se não a possibilidade de um novo começo? Às vezes nos prendemos tanto ao fim de um ciclo que não nos permitimos explorar novos labirintos internos, o que nos faz esquecer do fato de que existem coisas na vida que exigem a retirada da vírgula, que pausa, e a presença do ponto que marca um final. Que saibamos então respeitar os nossos limites que transcendem a questão de saber ou não usar a pontuação e que busquemos uma felicidade que vem de dentro, deixando-a transbordar para fora quando estivermos prontos. Que o nosso maior medo seja o de continuar vestidos com aquelas roupas que não nos cabem mais. Que, além de tudo, a gente se permita, porque a efemeridade da vida torna isso necessário. Entende?

E quando necessário, que possamos resgatar antigas músicas que cantam (ou cantavam) as nossas história para que elas possam nos ajudar a lembrar de quem éramos e dos motivos existentes para o almejo por mudanças.

Que o nosso vazio seja um local fértil. De possibilidades.

E que nos deixemos morrer, para que possamos renascer novamente. Quantas vezes for necessário!


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Por enquanto

Enquanto parte de mim estremece, a outra me diz baixinho que tudo vai ficar bem;

Enquanto minha voz se cala de tanto que tenho para falar, parte de mim grita em silêncio por dentro;

Enquanto que não me vejo, duvido, e me rabisco tentando me encontrar;

Enquanto fico sem ar por uma parte de mim, a outra tenta me ajudar a reaprender como respira;

Enquanto que não sou, continuo sendo na possibilidade latente que me habita;

Por enquanto que não sei, parte de mim tenta reaprender com a minha própria história;

Por enquanto que sou dúvida, parte de mim morre na certeza;

E hoje sou medo, mas só por enquanto, pois parte de mim já comemora.




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Imagine

Cá estou eu habitando outra casa e deixando-me habitar. Cá estou. E é tão estranho voltar à casa antiga, sabe? Eu volto lá e tudo permanece. Menos eu. É algo que nem consigo colocar em palavras, meu velho. É como se até mesmo eu fosse uma estranha a observar o lugar, observo de longe, mas ao mesmo tempo me vejo sendo observada por mim mesma dentro da casa. Consegue entender? A nova eu observando minha antiga pessoa ou algo assim. É possível sim ter esse olhar, conseguir estar e não estar. Enfim... vejo-me voltar ao meu berço, vejo-me andar pelos caminhos que andam em mim de tão conhecidos, de tão meus. 

Ando pelo estacionamento que me ensinou a andar de bicicleta e que foi espaço para tantas festas, tantos encontros e partidas. Na sala, mesmo sem ter o antigo espelho, ainda me vejo brincando no chão, ainda o sinto gelado, ainda sinto o desconforto, o alvoroço, ainda sinto você. Detalhes tão minuciosos que se não fosse o vazio não seria percebido, muito menos teria deixado saudade. Ainda sinto que parte de mim dorme naquela cama pequena, sem continente, aquela que se deixa transbordar. Mas a outra parte minha descansa tranquila na sua própria ilha. 

Tudo ali me preencheu. Tudo ali tem minhas marcas e tons. Também tem minhas maiores dores, perdas, medos e cicatrizes. Algo que, na primeira lida, pode parecer ruim, mas que dá um sentimento de pertencimento, sabe? É para as minhas dores que volto quando preciso de colo e isso incomoda sim, pois aquelas paredes não mais me sustentam, aqueles tetos não mais me abrigam, aquela descarga sanitária não faz desaparecer mais o que ali foi depositado, entende, meu velho? Tem coisas na nossa vida que simplesmente precisam deixar de ser rotina. Mesmo que machuque.

É importante se lançar nas novas possibilidades e continuar se lançando depois do primeiro voo livre. Não é necessário que se faça chover, entende? só se for para cultivar. Enquanto isso, segue deixando-se habitar.

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Reflexos

Tanta coisa para dizer, mas nada sai
Parece que já não sou mais eu quem quero falar
Tem várias dentro de mim e uma delas está sendo silenciada
Pego na mão da minha antiga pessoa e cuido dela
Afago seus afogamentos

Tanta coisa para viver e parece que tudo foi vivido
Ao mesmo tempo, parece que acabei de nascer
Há tantas de mim em mim que me calo
Há tanto silêncio que grita 
Encaro-me no espelho a fim de me reconhecer

Abro aquela velha bagagem e está tudo lá
Iludo-me achando que não trago comigo
Meus caminhos são percorridos de forma marcada
E tento mergulhar no inesperado 
Mas é tudo muito raso 

Abro a velha caixa que guardo
E encontro várias de mim
A que fala, a que cala e a que escreve
Todas merecedoras de preces
Tanta coisa para sair, mas nada digo.

Imagem Pinterest



As Caixas



É como se existissem dentro de mim caixinhas de imagens, sabe? Caixas que foram sendo preenchidas por imagens ao longo da minha vida. Desafios, idas à escola, medos, desejos, amores, perdas, quedas, comemorações... tudo o que acontecia e acontece exteriormente a mim, segue fazendo a festa aqui dentro da minha alma, deixando a devida imagem para simbolizar o tal momento.

Agora, nesse momento, grita em mim duas delas: a primeira contendo esse conteúdo mais ontogênico, aquela caixinha que contém minhas raízes, que eu sempre sentia latejando e a que todos ao meu redor colaboravam com uma imagem.Todo mundo dava vida a esta caixa, mas poucos, incluindo eu mesma, refletiam sobre seu real objetivo nas nossas existências. Sendo a segunda a mais autônoma, independente e fruto de vivências mais particulares.

Por essa primeira caixa ser ligada as minhas raízes, possui um conteúdo mais tatuado, mais colado, mais real, entende? É aquele tipo de coisa que te dá a sensação de ter uma identidade, de ser alguém: "eu sou assim... eu faço assim... eu amo assim... o certo é assim...", aquelas pequenas certezas que juramos ter ao longo da nossa caminhada existencial. Ilusão, talvez. 

Na primeira caixa não moram apenas as minhas imagens, mas também as da minha família, coleções e coleções de todo os seus  erros e acertos, os quais me pareciam a única realidade possível. Eu decalcava sem refletir e defendia, com toda a minha pouca experiência, tal modo de existir no mundo. Fui me construindo a partir de algo que não era meu e que me era ao mesmo tempo. Nunca é só nosso.

Enquanto a primeira caixa contêm as minhas raízes, na segunda repousam as minhas asas. Mas é difícil se permitir voar, é difícil. Porque a primeira caixa está ali te puxando para o chão, para a terra. 

Essa segunda caixa se caracteriza mais como uma produção independente. Imagens vão para lá depois de cada porta batida na cara, depois de cada planejamento mal sucedido, depois de algo que deu certo. Mais uma imagem bate na porta quando há uma conquista, quando uma poesia é perdida, quando um refrão não encontra a rima. 

Sim, existirão pessoas presentes que vão influenciar nessa segunda possibilidade. Mas, de uma forma ou de outra, essa segunda caixa é formada quando você sabe o que quer construir para a sua história. 

Com o tempo, você vai respeitando esse espaço tão novo, mas com tanta potência. Você vai percebendo que não precisa haver peso, nem haver mágoas... Você vai experimentando a leveza e vai se permitindo aprender com a história em que você é a protagonista. É meio louco, percebe? E talvez só eu perceba a loucura que falo, porque ela está dentro de mim. É a minha caixa que pulsa aqui. Ou melhor, as minhas, pois com o mesmo passar do tempo você aprende a trocar figurinhas com a caixa em que reside as suas raízes...

E você vai se equilibrando. Aprendendo a voar com as raízes que antes só permitia o rastejo. 

Com o tempo...
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Ela disse adeus...

Ela foi embora. E eu não poderia acabar esse "texto" nesta única frase! A ida dela foi um evento marcante, foi uma ida forte, vibrante. Ela disse adeus e, independente do lugar para onde ela partiu, foi embora dela mesma. Abandonou quem ela era, sabe como é? Deixou suas formas, seus traços, seu passo e foi se reinventar. Iniciou essa jornada tendo como principal referência quem ela era; queria ser outra, queria ser muitas. Queria ser para poder aparecer para si mesma! Ela, independente de qualquer coisa, permitiu-se à redescoberta dos seus passos, dos seus atos. Imagino que um dos objetivos do voo era (re)descobrir quem ela é quando quem ela sempre foi se percebeu cansada.

Colocou em suas malas alguns pares de roupas, algumas maquiagens e muitos sonhos, muita força e muita, muita, luta. Para a partida se vestiu de coragem e já de uma saudade que brotara desde o momento do início da jornada. Saudade da família, dos amigos e daquela menina que sempre teve muitos medos e muitas interrogações. Ela queria crescer, crescer para dentro; ramificar-se dentro de si. Suas raízes tinham escolhido buscar água em cantos mais distantes. 

"Eu quero novos erros". Ela me disse. "Eu quero novos erros". E eu vi tanta potência nessa fala, ela foi tão forte para mim que senti que poderia pegá-la, sabe? Essa fala ressoou e segue continuando nos gerúndios infinitos dos teus atos. Pensei no tamanho da coragem existente não só na frase, mas nas atitudes que ela, a mulher guerreira, vem tendo, vem se permitindo. Não é fácil tirar todas as roupas que protegem e ficar despida para a vida. E eu consigo te imaginar de braços abertos para o novo; não que não haja medo ou dúvidas ou interrogações, mas sim, colocando-se entre o espaço do meio entre o medo e o ato, seguindo em frente independente do medo que segue perto.

Eu sigo aqui te aplaudindo. Amando-te e torcendo por cada passo teu. Sigo te sentindo, certo? Porque a energia do nosso encontro é maior do que essa distância física que existe entre mim e você.

"Tem horas que a gente já está indo, aí não tem para onde voltar". 
Esta frase também segue ressoando em mim...

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13 coisas que a Amanda de hoje diria para a Amanda de 13 anos


 

1. Você é a menina mais forte que eu conheço! Siga.
2. Esse ano (2004) você irá para uma escola pública, ficará assustada no começo, mas será o local que te apresentará a grandes amigos e te fará crescer muito.
3. Não precisa fazer nada que não queira só para que os outros vejam que você é capaz. Esquece esta vontade de agradar a todos. Conflito é bom, menina!
4. Um indivíduo irá na tua escola e vai rir de você quando falares que pretende fazer medicina. Ok em não fazer medicina, você conhecerá a Psicologia, mas não deixe que outras pessoas te diminuam ou façam você duvidar da sua capacidade.
5. Não perca tempo querendo ser vista pelo seu genitor, ele só irá te machucar e as palavras que ele te direcionará não servirão para nada. Afaste-se, Amanda, não vale nada a pena.
6. Você é muito amada!
7. Amor não é nada disso que você está vendo. Amor é construção, é respeito, é confiança. Não pegue isso aí como parâmetro, por favor. Isso vai te confundir demais no futuro. 
8. Muitos te dirão que você tem 13 anos com cabeça de 31 e você terá mesmo, mas, olha, vai viver tua adolescência, porque tem maturidade que não compensa não.
9. No teu aniversário desse ano, você ira vestir uma blusa branca com um enorme A. Vai ficar engraçado, mas você é bem autêntica! :)
10. No mesmo aniversário, seu avô te fará um discurso usando o microfone do karaokê, grava bem a voz dele, ela te fará muita falta.
11. Aproveita tua família, grava os pequenos detalhes, são eles que te darão suporte.
12. Obrigada por ser quem você é. Obrigada por segurar as pontas muitas vezes sozinha.Eu realmente tenho orgulho de você!
13. Tudo passa! 



"Num indo e vindo infinito..."

Tem coisas na nossa vida que vive nos chamando, geralmente são coisas e fatos que fazem parte de quem nós somos ou lutamos para não ser, sabe? Existem mares muito devastadores, os quais entramos sem ter muita noção da sua profundidade e, quando pensamos que vamos conseguir mergulhar, somos engolidos por eles. Tão bonitos e tão poluídos são esses mares que me cercam. Quando há o esclarecimento que tais águas não nos fazem bem, começa a luta que faz parte do processo de aprendizagem de nadar contra a maré. Dói demais nadar contra a correnteza, aquela que suga, que é invasiva, aquela que não me deixa discursar o meu real desejo de nadar; todavia, são as águas em que me reconheço, são as águas da minha nascente... fica difícil.
Por muito tempo eu não entendia o motivo de estar afogando. Talvez eu ainda não saiba, mas as próprias águas me ensinaram que eu posso fluir. Portanto, escolhi ir além e estou descobrindo o meu próprio continente, os limites que as minhas águas conseguem conquistar. Às vezes as minhas águas encontram aquelas outras águas poluídas. Às vezes eu me pego sem controle do meu fluxo, do meu movimento e isso ocorre quando as águas se misturam, fico sem saber onde estou.
E, com isso, vou filtrando minha existência. Aprendendo com ela a lidar com minha história e com cada pingo meu que possui uma potência tão tênue. Tão híbrida. Mergulho nas minhas próprias águas para saber qual parte de mim ainda pode me afogar e vou aprendendo a boiar quando minha maré enche. Porque nenhuma água é mansa, nenhuma água é pura. Há sempre multidões nos mares.

Foto do google

Chovendo

Hoje eu sou chuva
Porque resolvi desaguar
Porque resolvi transbordar
Porque resolvi pingar cada gota minha que não me preenche mais
e continuo pingando
e continuo desaguando o que não mais me cabe. 

Quando eu chovo, é porque a enchente não aguenta mais residir em mim
Água parada não possibilita o florecer
E, com isso, permito que minhas águas decidam novos locais
e elas seguem o fluxo
e passam a habitar novas possibilidades
Novas estiadas
Chovendo vou conhecendo novas esquinas e novas formas de me tornar sólida

Transbordo, me perco
e tudo vai embora
Às vezes, tudo volta
Porque o percurso pode mudar de direção.
Não tem erros ou acertos no caminho das minhas águas
Quando se está chovendo, o caminho é incerto
E a única certeza é que estou em movimento
Sou movimento
E sigo.


Como um sapato velho...

O problema começa quando ele nem precisa começar para ser um problema, o problema está justamente no fato que causa a não percepção da sua existência e quando finamente deixamos que este, o problema, emerja à superfície é um acontecimento que nos deixa surpresos. É como aquela sapatilha que usamos há tempos, mas que passa a machucar fazendo calo só agora, entende?! Como se alguma coisa tivesse ativado o seu material chinfrim, o que passou a castigar os meus pequenos pés.  Talvez, até mesmo o fato dela ser velha tenha sido a causa do meu martírio ao caminhar; acredito que ela já conheça os meus passos e esteja apenas sinalizando que agora eu devo peregrinar por outros caminhos. Quem sabe...

Daqui até ouso e ouço ela falar: tu tas indo pelos mesmos caminhos e caindo nos mesmos buracos, preciso fazer doer para te fazer parar? Talvez sim, querida sapatilha, infelizmente tem coisas na vida que levam tempo para que se possa escolher tomar novos rumos, outras vezes nem se trata de escolha, sabe?! Porém, sigo caminhando e esse seu recado me mostra que eu não preciso de você para ir traçando o que quero para o meu hoje.

O plano é ressignificar esses calos para que eles curem e não me machuquem quando eu for andar com novos pares. Escolherei os pares mais confortáveis para que estes combinem com a leveza e sutileza que almejo para o meu caminhar. 

Caminhemos, então.            
Foto de Hanna Kardenya