Porque eu sou uma mulher de passos apressados

Eu agradeço por cada mulher que senta ao meu lado no ônibus;
Eu agradeço por cada mulher que anda na mesma calçada que eu;
Eu agradeço por cada motorista uber mulher que pego;
e agradeço àquela mulher que me mandou atravessar a rua porque ali tinha homens estranhos.

Eu agradeço a mim mesma por, ainda adolescente e sem a perspectiva que tenho hoje, fingir que estava numa ligação para que a mulher na minha frente se sentisse segura ao ouvir a minha voz, Para que ela não precisasse aumentar os passos ao ouvir os meus,
Porque ali eu também era outra mulher de passos apressados.

Porque eu sou uma mulher de passos apressados. 
E aprendemos isso bem cedo.

Eu agradeço a cada mulher que ocupa um espaço de poder na sociedade
E agradeço a todas as outras por lembrarem que o poder pode estar em todos os lugares;
Eu agradeço as mulheres que alimentam o poder que há dentro de mim.

Com toda intensidade, eu agradeço pela força da mulher que me deu a vida;
Adolescente. Solteira. Sozinha.
E agradeço a todas as outras pessoas que a ajudaram pelo caminho.

Eu agradeço pela existência de todas as mulheres da minha família;
Fortes. Guerreiras. Teimosas.
Cada uma do seu jeito. Cada uma do jeito que dá.

Eu agradeço por não estar sozinha.
Nunca.

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Certezas

Tanta gente com tanta certeza de tanta coisa, 
certeza do que não existe, certeza do que são, certeza de quem são todos eles. 
É tanta certeza que não sobra espaço para mais nada: 
nem para si, nem para o outro, muito menos para nós. 
É certeza do que aconteceu, do que poderia ter acontecido 
e de todos os motivos certeiros do que nem chegou a acontecer. 
Tanta certeza. Que se perde a leveza, a possibilidade ou quem sabe... 
Tanta certeza que sufoca de tanta certeza, 
certeza engasgada de certeza, certeza que só come certeza, certeza que só sabe certeza. 
Certeza que, no fundo, não sabe de nada. 
Que necessidade é essa, Certeza? 
Certeza que cega, que mata a cada ponto final e que não cede espaço para nenhuma interpretação pessoal. 
Certeza que não tem linguagem poética, que não fala a linguagem da alma. 
Para quem falas, então?! 
Certeza que não pode ter dúvidas, Certeza que não pode errar 
e muito menos perceber que toda certeza erra.
Certeza que culpa que acusa que exclui e que exclui novamente dizendo barbáries de forma maquiada. Máquinas. Certezas que geram máquinas. 
E já não se sabe o que se faz, 
não se sabe mais o que se questiona, 
não se sabe mais pelo que se luta. 
E o que se vê são Certezas andando à Chaplin, 
não o Chaplin do discurso, mas aquele da clássica cena da fábrica que apenas é, 
mas que não sabe nem ao menos quem.
É apenas uma Certeza que carrega várias consigo.



Ser papel

Quando a gente toca muito em um papel, toca muito e de verdade, ele muda, se transforma. 

De início, ele é liso, sem marcas nem falhas, rígido, plano, sem brilho e,  tampouco, histórias. 

Com o tempo, com os movimentos e pausas, ele vai ganhando nova textura, vai mudando o jeito, vai sendo preenchido por narrativas.

Amassado e cheio de cicatrizes, defende o que acredita, mas mantém sua maleabilidade, seu novo jeito de ser um quase tecido.

De tão marcado, vai perdendo os seus pedaços, deixando-os pelos vários caminhos percorridos.

Quanto mais se perde mais se reconhece mais tece mais é. Já não é só papel, já não é do tecido.

Já não é! Mas existe no sendo.

O papel carrega consigo vidas, vidas borradas, apagadas, reescritas... Vidas que permanecem mesmo quando o papel já não existe.

Lidas.

Vidas que muitas vezes precisam aprender a reescrever ou reaprender a escrever.

Ou simplesmente conseguir aguentar a existência de folhas em branco.

Livres.



Depois

Depois que ele se foi eu aprendi a conjugar o verbo perder
Depois que ele se foi eu senti tanta falta
Depois que ele se foi a raiva, que às vezes eu sentia, tornou-se poesia
Depois que ele se foi tudo se tornou saudade
Ele se foi e a música diminuiu sua presença
Ele se foi e muitos se tornaram ausência
Depois que ele se foi parte de mim foi junto
Depois que ele se foi o amor por ela tornou-se maior

Mas depois ela também foi

E depois que ela se foi 'perder' já não era mais um verbo irregular
Depois que ela se foi eu senti tanta falta
E mesmo antes dela ir - tudo que ela fazia - para mim era poesia
E mesmo antes dela ir eu já era saudade
Ela se foi e a música foi junto
Ela se foi e já não tinha mais ninguém
Depois que ela se foi eu ainda nem sei o que aconteceu comigo

Eles se foram e 'ir' continua sendo um verbo irregular.


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Quando necessário

Mas o que constitui o fim de algo, se não a possibilidade de um novo começo? Às vezes nos prendemos tanto ao fim de um ciclo que não nos permitimos explorar novos labirintos internos, o que nos faz esquecer do fato de que existem coisas na vida que exigem a retirada da vírgula, que pausa, e a presença do ponto que marca um final. Que saibamos então respeitar os nossos limites que transcendem a questão de saber ou não usar a pontuação e que busquemos uma felicidade que vem de dentro, deixando-a transbordar para fora quando estivermos prontos. Que o nosso maior medo seja o de continuarmos vestidos com aquelas roupas que não nos cabem mais. Que, além de tudo, a gente se permita, porque a efemeridade da vida torna isso necessário. Entende?

E quando necessário, que possamos resgatar antigas músicas que cantam (ou cantavam) as nossas história para que elas possam nos ajudar a lembrar de quem éramos e dos motivos existentes para o almejo por mudanças.

Que o nosso vazio seja um local fértil. De possibilidades.

E que nos deixemos morrer, para que possamos renascer novamente. Quantas vezes for necessário!


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Por enquanto

Enquanto parte de mim estremece, a outra me diz baixinho que tudo vai ficar bem;

Enquanto minha voz se cala de tanto que tenho para falar, parte de mim grita em silêncio por dentro;

Enquanto que não me vejo, duvido, e me rabisco tentando me encontrar;

Enquanto fico sem ar por uma parte de mim, a outra tenta me ajudar a reaprender como respira;

Enquanto que não sou, continuo sendo na possibilidade latente que me habita;

Por enquanto que não sei, parte de mim tenta reaprender com a minha própria história;

Por enquanto que sou dúvida, parte de mim morre na certeza;

E hoje sou medo, mas só por enquanto, pois parte de mim já comemora.




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Imagine

Cá estou eu habitando outra casa e deixando-me habitar. Cá estou. E é tão estranho voltar à casa antiga, sabe? Eu volto lá e tudo permanece. Menos eu. É algo que nem consigo colocar em palavras, meu velho. É como se até mesmo eu fosse uma estranha a observar o lugar, observo de longe, mas ao mesmo tempo me vejo sendo observada por mim mesma dentro da casa. Consegue entender? A nova eu observando minha antiga pessoa ou algo assim. É possível sim ter esse olhar, conseguir estar e não estar. Enfim... vejo-me voltar ao meu berço, vejo-me andar pelos caminhos que andam em mim de tão conhecidos, de tão meus. 

Ando pelo estacionamento que me ensinou a andar de bicicleta e que foi espaço para tantas festas, tantos encontros e partidas. Na sala, mesmo sem ter o antigo espelho, ainda me vejo brincando no chão, ainda o sinto gelado, ainda sinto o desconforto, o alvoroço, ainda sinto você. Detalhes tão minuciosos que se não fosse o vazio não seria percebido, muito menos teria deixado saudade. Ainda sinto que parte de mim dorme naquela cama pequena, sem continente, aquela que se deixa transbordar. Mas a outra parte minha descansa tranquila na sua própria ilha. 

Tudo ali me preencheu. Tudo ali tem minhas marcas e tons. Também tem minhas maiores dores, perdas, medos e cicatrizes. Algo que, na primeira lida, pode parecer ruim, mas que dá um sentimento de pertencimento, sabe? É para as minhas dores que volto quando preciso de colo e isso incomoda sim, pois aquelas paredes não mais me sustentam, aqueles tetos não mais me abrigam, aquela descarga sanitária não faz desaparecer mais o que ali foi depositado, entende, meu velho? Tem coisas na nossa vida que simplesmente precisam deixar de ser rotina. Mesmo que machuque.

É importante se lançar nas novas possibilidades e continuar se lançando depois do primeiro voo livre. Não é necessário que se faça chover, entende? só se for para cultivar. Enquanto isso, segue deixando-se habitar.

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Reflexos

Tanta coisa para dizer, mas nada sai
Parece que já não sou mais eu quem quero falar
Tem várias dentro de mim e uma delas está sendo silenciada
Pego na mão da minha antiga pessoa e cuido dela
Afago seus afogamentos

Tanta coisa para viver e parece que tudo foi vivido
Ao mesmo tempo, parece que acabei de nascer
Há tantas de mim em mim que me calo
Há tanto silêncio que grita 
Encaro-me no espelho a fim de me reconhecer

Abro aquela velha bagagem e está tudo lá
Iludo-me achando que não trago comigo
Meus caminhos são percorridos de forma marcada
E tento mergulhar no inesperado 
Mas é tudo muito raso 

Abro a velha caixa que guardo
E encontro várias de mim
A que fala, a que cala e a que escreve
Todas merecedoras de preces
Tanta coisa para sair, mas nada digo.

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As Caixas



É como se existissem dentro de mim caixinhas de imagens, sabe? Caixas que foram sendo preenchidas por imagens ao longo da minha vida. Desafios, idas à escola, medos, desejos, amores, perdas, quedas, comemorações... tudo o que acontecia e acontece exteriormente a mim, segue fazendo a festa aqui dentro da minha alma, deixando a devida imagem para simbolizar o tal momento.

Agora, nesse momento, grita em mim duas delas: a primeira contendo esse conteúdo mais ontogênico, aquela caixinha que contém minhas raízes, que eu sempre sentia latejando e a que todos ao meu redor colaboravam com uma imagem.Todo mundo dava vida a esta caixa, mas poucos, incluindo eu mesma, refletiam sobre seu real objetivo nas nossas existências. Sendo a segunda a mais autônoma, independente e fruto de vivências mais particulares.

Por essa primeira caixa ser ligada as minhas raízes, possui um conteúdo mais tatuado, mais colado, mais real, entende? É aquele tipo de coisa que te dá a sensação de ter uma identidade, de ser alguém: "eu sou assim... eu faço assim... eu amo assim... o certo é assim...", aquelas pequenas certezas que juramos ter ao longo da nossa caminhada existencial. Ilusão, talvez. 

Na primeira caixa não moram apenas as minhas imagens, mas também as da minha família, coleções e coleções de todo os seus  erros e acertos, os quais me pareciam a única realidade possível. Eu decalcava sem refletir e defendia, com toda a minha pouca experiência, tal modo de existir no mundo. Fui me construindo a partir de algo que não era meu e que me era ao mesmo tempo. Nunca é só nosso.

Enquanto a primeira caixa contêm as minhas raízes, na segunda repousam as minhas asas. Mas é difícil se permitir voar, é difícil. Porque a primeira caixa está ali te puxando para o chão, para a terra. 

Essa segunda caixa se caracteriza mais como uma produção independente. Imagens vão para lá depois de cada porta batida na cara, depois de cada planejamento mal sucedido, depois de algo que deu certo. Mais uma imagem bate na porta quando há uma conquista, quando uma poesia é perdida, quando um refrão não encontra a rima. 

Sim, existirão pessoas presentes que vão influenciar nessa segunda possibilidade. Mas, de uma forma ou de outra, essa segunda caixa é formada quando você sabe o que quer construir para a sua história. 

Com o tempo, você vai respeitando esse espaço tão novo, mas com tanta potência. Você vai percebendo que não precisa haver peso, nem haver mágoas... Você vai experimentando a leveza e vai se permitindo aprender com a história em que você é a protagonista. É meio louco, percebe? E talvez só eu perceba a loucura que falo, porque ela está dentro de mim. É a minha caixa que pulsa aqui. Ou melhor, as minhas, pois com o mesmo passar do tempo você aprende a trocar figurinhas com a caixa em que reside as suas raízes...

E você vai se equilibrando. Aprendendo a voar com as raízes que antes só permitia o rastejo. 

Com o tempo...
Foto do Google





Ela disse adeus...

Ela foi embora. E eu não poderia acabar esse "texto" nesta única frase! A ida dela foi um evento marcante, foi uma ida forte, vibrante. Ela disse adeus e, independente do lugar para onde ela partiu, foi embora dela mesma. Abandonou quem ela era, sabe como é? Deixou suas formas, seus traços, seu passo e foi se reinventar. Iniciou essa jornada tendo como principal referência quem ela era; queria ser outra, queria ser muitas. Queria ser para poder aparecer para si mesma! Ela, independente de qualquer coisa, permitiu-se à redescoberta dos seus passos, dos seus atos. Imagino que um dos objetivos do voo era (re)descobrir quem ela é quando quem ela sempre foi se percebeu cansada.

Colocou em suas malas alguns pares de roupas, algumas maquiagens e muitos sonhos, muita força e muita, muita, luta. Para a partida se vestiu de coragem e já de uma saudade que brotara desde o momento do início da jornada. Saudade da família, dos amigos e daquela menina que sempre teve muitos medos e muitas interrogações. Ela queria crescer, crescer para dentro; ramificar-se dentro de si. Suas raízes tinham escolhido buscar água em cantos mais distantes. 

"Eu quero novos erros". Ela me disse. "Eu quero novos erros". E eu vi tanta potência nessa fala, ela foi tão forte para mim que senti que poderia pegá-la, sabe? Essa fala ressoou e segue continuando nos gerúndios infinitos dos teus atos. Pensei no tamanho da coragem existente não só na frase, mas nas atitudes que ela, a mulher guerreira, vem tendo, vem se permitindo. Não é fácil tirar todas as roupas que protegem e ficar despida para a vida. E eu consigo te imaginar de braços abertos para o novo; não que não haja medo ou dúvidas ou interrogações, mas sim, colocando-se entre o espaço do meio entre o medo e o ato, seguindo em frente independente do medo que segue perto.

Eu sigo aqui te aplaudindo. Amando-te e torcendo por cada passo teu. Sigo te sentindo, certo? Porque a energia do nosso encontro é maior do que essa distância física que existe entre mim e você.

"Tem horas que a gente já está indo, aí não tem para onde voltar". 
Esta frase também segue ressoando em mim...

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