A moça do sorriso aberto

Eu a olhava de longe para que ela não percebesse a minha presença. Não sei bem o motivo disso, visto que se eu fosse percebida ela não entenderia o motivo do meu olhar fixo em sua direção. Ela é dessas que não percebe ou que prefere não acreditar nas inúmeras possibilidades, sabe? Ela é aquele tipo de pessoa que acredita desacreditando, não porque ela é má, mas já foram tantos tapas na cara que ela se obriga a estar sempre alerta, porém mesmo alerta ela não acredita. Na verdade nem sei se consigo explicar esse enigma em forma de mulher. Ela é muito forte, há uma fera dentro dela sempre pronta para o ataque, ela luta como respira, ou seja, de forma espontânea e sem fazer grandes esforços. Às vezes eu acho que se ela parar de lutar ela morre, pois pelo que vejo ela gosta e se sente em casa quando frente a situações que pedem dela maiores motivações. 

Não sei. Ela tem muita garra, mas por outro lado não confia nela, sabe como é? Fato que a faz perder muita coisa, porque antes de fazer algo ela já sabe que não vai dar conta. E mesmo sabendo disso vai lá e faz, fazendo com bastante honra e da melhor forma que ela consegue. Tá ai um ponto que eu admiro nela: ela sempre dá o melhor de si. Mesmo quando ela é dúvida. Mesmo quando ela é medo. Mesmo quando ela não sabe o que está sendo no momento. Ela está lá dando o seu melhor. Mesmo assim eu não consigo parar de desejar para ela mais autoconfiança e que ela consiga ter mais leveza que um algodão banhando-se no mar. Afinal deve ter algum momento em que o algodão afunda.

Ela guarda mágoa, não, melhor, ela sabe que guarda mágoa, mas é incapaz de lembrar dos motivos que geraram as mágoas guardadas. Ela tem canções que cantam sua história, mas também esquece das respectivas letras e sempre precisa digitar parte da frase da canção no google para tentar encontra-la toda. Ela se perde demais. Ela é perdas. Nossa, como ela é preenchida de perdas. Mas talvez, num ato quase cruel da minha parte, isso que seja seu tempero especial. Ela entende a efemeridade da vida. E conhece bem a efemeridade que mora dentro dela. Ela deve ser do signo de gêmeos, não sei.

Só sei que ela é pura poesia. Daquelas que a gente, no momento exato em que a descobre, que ler para todo mundo da família. Ela é aquela poesia em que a gente se encontra. Poesia que faz chorar. Poesia que faz crescer a vontade de amar. Já se sentiu assim? Poesia simples e cheia de verdade, daquelas verdades que nascem diretamente da alma, esse "local" que é o nascedouro de coisas complexas e inefáveis.

"E pobre desses rapazes que tentam lhe fazer feliz."

Pintura do artista Duy Huynh

Ilhar-se; tornar-se ilha.

Hoje ao mexer nas minhas coisas guardadas, nos meus diversos eus engavetados, me dei conta de algumas coisas. Primeiramente me dei conta que a mulher que sou nasceu a partir de várias mortes. De vários vazios. De vários nadas. Em seguida percebi o quando isso é bonito e se tornou bonito pelo simples fato de eu conseguir reconhecer isso, sabe? Comecei a ler umas coisas que petrifiquei há alguns anos e, para mim, aquelas palavras me vestiriam para sempre. Que ilusão. Fui lendo e me perguntando como naquele momento eu não percebia tantas coisas que hoje vejo de forma escancarada, como se antes eu fosse uma casa sem portas e nem janelas onde o vendo corria livre ao mesmo tempo que não passava nenhuma segurança. A casa estava aberta demais naquele tempo. E eu não tentava nem achar alguma porta. Como pude? Confesso que não consegui terminar de me ler. Fechei aquelas palavras e fiquei refletindo sobre. Em um segundo momento, agora depois de despir-me, lembrei de que antes muitas coisas que atormentam já fazia tremer a pequena ilha que sou e eu não as sentia, será que eu era ingênua ou só não me conhecia? Nenhuma das opções (ou todas elas). Hoje percebo que não era o momento, não era o meu tempo e tudo bem. Não perceber algumas coisas me ajudou a continuar minha caminhada, entende? E tenho tanto orgulho de todos os passos dados por mim, principalmente por esse passo do autoconhecimento. Talvez o mais difícil. Pois não é nada fácil perceber que muita coisa perdida aconteceu devido a mim mesma, devido ao meu mal jeito, devido a não saber administrar sozinha essa pequena ilha que sou. Não é tranquilo olhar para as minhas águas e ver que parte da poluição existente foi o lixo que eu própria juntei, mas tudo bem. Nada é tão definitivo que não possa se transformar, nem a própria morte. Eu li muita cobrança. Eu fui apenas cobrança. E hoje percebo que ninguém consegue ser uma pequena ilha sozinha. Para ser ilha, precisa-se de mar. Para continuar ilha, precisa-se das terras. Para ser uma ilha feliz, é importante umas árvores e suas respectivas sombras, porque ninguém é verão o ano inteiro. Para continuar ilha é necessário ser terra fértil. Hoje possuo mais medos do que os lidos nas páginas passadas, mas a diferença é que é um medo maduro, um medo meu, um medo que faz o possível para que a vida na pequena ilha que sou não seja extinta. E tudo bem. A ilha hoje grita, mas ainda há muitas terras desconhecidas nessa pequena ilha que sou.

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Porque eu sou uma mulher de passos apressados

Eu agradeço por cada mulher que senta ao meu lado no ônibus;
Eu agradeço por cada mulher que anda na mesma calçada que eu;
Eu agradeço por cada motorista uber mulher que pego;
e agradeço àquela mulher que me mandou atravessar a rua porque ali tinha homens estranhos.

Eu agradeço a mim mesma por, ainda adolescente e sem a perspectiva que tenho hoje, fingir que estava numa ligação para que a mulher na minha frente se sentisse segura ao ouvir a minha voz, Para que ela não precisasse aumentar os passos ao ouvir os meus,
Porque ali eu também era outra mulher de passos apressados.

Porque eu sou uma mulher de passos apressados. 
E aprendemos isso bem cedo.

Eu agradeço a cada mulher que ocupa um espaço de poder na sociedade
E agradeço a todas as outras por lembrarem que o poder pode estar em todos os lugares;
Eu agradeço as mulheres que alimentam o poder que há dentro de mim.

Com toda intensidade, eu agradeço pela força da mulher que me deu a vida;
Adolescente. Solteira. Sozinha.
E agradeço a todas as outras pessoas que a ajudaram pelo caminho.

Eu agradeço pela existência de todas as mulheres da minha família;
Fortes. Guerreiras. Teimosas.
Cada uma do seu jeito. Cada uma do jeito que dá.

Eu agradeço por não estar sozinha.
Nunca.

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Certezas

Tanta gente com tanta certeza de tanta coisa, 
certeza do que não existe, certeza do que são, certeza de quem são todos eles. 
É tanta certeza que não sobra espaço para mais nada: 
nem para si, nem para o outro, muito menos para nós. 
É certeza do que aconteceu, do que poderia ter acontecido 
e de todos os motivos certeiros do que nem chegou a acontecer. 
Tanta certeza. Que se perde a leveza, a possibilidade ou quem sabe... 
Tanta certeza que sufoca de tanta certeza, 
certeza engasgada de certeza, certeza que só come certeza, certeza que só sabe certeza. 
Certeza que, no fundo, não sabe de nada. 
Que necessidade é essa, Certeza? 
Certeza que cega, que mata a cada ponto final e que não cede espaço para nenhuma interpretação pessoal. 
Certeza que não tem linguagem poética, que não fala a linguagem da alma. 
Para quem falas, então?! 
Certeza que não pode ter dúvidas, Certeza que não pode errar 
e muito menos perceber que toda certeza erra.
Certeza que culpa que acusa que exclui e que exclui novamente dizendo barbáries de forma maquiada. Máquinas. Certezas que geram máquinas. 
E já não se sabe o que se faz, 
não se sabe mais o que se questiona, 
não se sabe mais pelo que se luta. 
E o que se vê são Certezas andando à Chaplin, 
não o Chaplin do discurso, mas aquele da clássica cena da fábrica que apenas é, 
mas que não sabe nem ao menos quem.
É apenas uma Certeza que carrega várias consigo.



Ser papel

Quando a gente toca muito em um papel, toca muito e de verdade, ele muda, se transforma. 

De início, ele é liso, sem marcas nem falhas, rígido, plano, sem brilho e,  tampouco, histórias. 

Com o tempo, com os movimentos e pausas, ele vai ganhando nova textura, vai mudando o jeito, vai sendo preenchido por narrativas.

Amassado e cheio de cicatrizes, defende o que acredita, mas mantém sua maleabilidade, seu novo jeito de ser um quase tecido.

De tão marcado, vai perdendo os seus pedaços, deixando-os pelos vários caminhos percorridos.

Quanto mais se perde mais se reconhece mais tece mais é. Já não é só papel, já não é do tecido.

Já não é! Mas existe no sendo.

O papel carrega consigo vidas, vidas borradas, apagadas, reescritas... Vidas que permanecem mesmo quando o papel já não existe.

Lidas.

Vidas que muitas vezes precisam aprender a reescrever ou reaprender a escrever.

Ou simplesmente conseguir aguentar a existência de folhas em branco.

Livres.



Depois

Depois que ele se foi eu aprendi a conjugar o verbo perder
Depois que ele se foi eu senti tanta falta
Depois que ele se foi a raiva, que às vezes eu sentia, tornou-se poesia
Depois que ele se foi tudo se tornou saudade
Ele se foi e a música diminuiu sua presença
Ele se foi e muitos se tornaram ausência
Depois que ele se foi parte de mim foi junto
Depois que ele se foi o amor por ela tornou-se maior

Mas depois ela também foi

E depois que ela se foi 'perder' já não era mais um verbo irregular
Depois que ela se foi eu senti tanta falta
E mesmo antes dela ir - tudo que ela fazia - para mim era poesia
E mesmo antes dela ir eu já era saudade
Ela se foi e a música foi junto
Ela se foi e já não tinha mais ninguém
Depois que ela se foi eu ainda nem sei o que aconteceu comigo

Eles se foram e 'ir' continua sendo um verbo irregular.


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Quando necessário

Mas o que constitui o fim de algo, se não a possibilidade de um novo começo? Às vezes nos prendemos tanto ao fim de um ciclo que não nos permitimos explorar novos labirintos internos, o que nos faz esquecer do fato de que existem coisas na vida que exigem a retirada da vírgula, que pausa, e a presença do ponto que marca um final. Que saibamos então respeitar os nossos limites que transcendem a questão de saber ou não usar a pontuação e que busquemos uma felicidade que vem de dentro, deixando-a transbordar para fora quando estivermos prontos. Que o nosso maior medo seja o de continuarmos vestidos com aquelas roupas que não nos cabem mais. Que, além de tudo, a gente se permita, porque a efemeridade da vida torna isso necessário. Entende?

E quando necessário, que possamos resgatar antigas músicas que cantam (ou cantavam) as nossas história para que elas possam nos ajudar a lembrar de quem éramos e dos motivos existentes para o almejo por mudanças.

Que o nosso vazio seja um local fértil. De possibilidades.

E que nos deixemos morrer, para que possamos renascer novamente. Quantas vezes for necessário!


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Por enquanto

Enquanto parte de mim estremece, a outra me diz baixinho que tudo vai ficar bem;

Enquanto minha voz se cala de tanto que tenho para falar, parte de mim grita em silêncio por dentro;

Enquanto que não me vejo, duvido, e me rabisco tentando me encontrar;

Enquanto fico sem ar por uma parte de mim, a outra tenta me ajudar a reaprender como respira;

Enquanto que não sou, continuo sendo na possibilidade latente que me habita;

Por enquanto que não sei, parte de mim tenta reaprender com a minha própria história;

Por enquanto que sou dúvida, parte de mim morre na certeza;

E hoje sou medo, mas só por enquanto, pois parte de mim já comemora.




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Imagine

Cá estou eu habitando outra casa e deixando-me habitar. Cá estou. E é tão estranho voltar à casa antiga, sabe? Eu volto lá e tudo permanece. Menos eu. É algo que nem consigo colocar em palavras, meu velho. É como se até mesmo eu fosse uma estranha a observar o lugar, observo de longe, mas ao mesmo tempo me vejo sendo observada por mim mesma dentro da casa. Consegue entender? A nova eu observando minha antiga pessoa ou algo assim. É possível sim ter esse olhar, conseguir estar e não estar. Enfim... vejo-me voltar ao meu berço, vejo-me andar pelos caminhos que andam em mim de tão conhecidos, de tão meus. 

Ando pelo estacionamento que me ensinou a andar de bicicleta e que foi espaço para tantas festas, tantos encontros e partidas. Na sala, mesmo sem ter o antigo espelho, ainda me vejo brincando no chão, ainda o sinto gelado, ainda sinto o desconforto, o alvoroço, ainda sinto você. Detalhes tão minuciosos que se não fosse o vazio não seria percebido, muito menos teria deixado saudade. Ainda sinto que parte de mim dorme naquela cama pequena, sem continente, aquela que se deixa transbordar. Mas a outra parte minha descansa tranquila na sua própria ilha. 

Tudo ali me preencheu. Tudo ali tem minhas marcas e tons. Também tem minhas maiores dores, perdas, medos e cicatrizes. Algo que, na primeira lida, pode parecer ruim, mas que dá um sentimento de pertencimento, sabe? É para as minhas dores que volto quando preciso de colo e isso incomoda sim, pois aquelas paredes não mais me sustentam, aqueles tetos não mais me abrigam, aquela descarga sanitária não faz desaparecer mais o que ali foi depositado, entende, meu velho? Tem coisas na nossa vida que simplesmente precisam deixar de ser rotina. Mesmo que machuque.

É importante se lançar nas novas possibilidades e continuar se lançando depois do primeiro voo livre. Não é necessário que se faça chover, entende? só se for para cultivar. Enquanto isso, segue deixando-se habitar.

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Reflexos

Tanta coisa para dizer, mas nada sai
Parece que já não sou mais eu quem quero falar
Tem várias dentro de mim e uma delas está sendo silenciada
Pego na mão da minha antiga pessoa e cuido dela
Afago seus afogamentos

Tanta coisa para viver e parece que tudo foi vivido
Ao mesmo tempo, parece que acabei de nascer
Há tantas de mim em mim que me calo
Há tanto silêncio que grita 
Encaro-me no espelho a fim de me reconhecer

Abro aquela velha bagagem e está tudo lá
Iludo-me achando que não trago comigo
Meus caminhos são percorridos de forma marcada
E tento mergulhar no inesperado 
Mas é tudo muito raso 

Abro a velha caixa que guardo
E encontro várias de mim
A que fala, a que cala e a que escreve
Todas merecedoras de preces
Tanta coisa para sair, mas nada digo.

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