"Nas Margens de Mim"

Um dia Caio Fernando Abreu falou em um dos seus contos que “o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas” e é exatamente sobre essas esquinas, ou do que eu perco em cada uma delas, de que esse texto se trata. Não sei se é a modernidade, a era digital ou insensibilidade coletiva, só sei que essa moda de tornar as coisas substituíveis é considerada por mim o mal do século, em cada esquina que passo sinto que há pedaços da minha pessoa jogados por outras que passaram primeiro por lá.

A todas as pessoas que amo eu dei um pedaço de minha essência , o que na verdade não sei se foi uma coisa boa, amei, amei muito, do jeito que é (ou deveria ser) o amor verdadeiro: Conversei, escutei, aceitei defeitos, briguei, chorei, odiei, insisti e lutei (lutei muito) para manter tais amizades. Quantas vezes eu me magoei com um ato de um amigo e fiquei bem quase que no mesmo instante por saber que ele era assim, com quase todas as pessoas, e que isso não passava de um defeito comparado a inúmeras qualidades? Muitas vezes! Quantas vezes eu não vi um amigo “amar”/ procurar/ cuidar mais de uma pessoa que conheceu pela internet e me deixar de lado sem dar nenhuma importância ao calor do meu abraço? Quantas vezes eu me vi marcando algo com o grupo de amigos e 70% não foi e nem mandou mensagem ou ligou (ou fez qualquer outra coisa que se faz quando se ama a outra pessoa)? Quantas vezes eu vi um amigo perguntando algo por curiosidade e não por cuidado e/ou preocupação? E me vi insistindo por uma conversa de esclarecimento e me vi mostrando ao meu amigo o quanto que ele estava me deixando de lado e me vi perdendo os meus pedaços...

Amor não se pede, não se implora! Não é essa a minha intenção ao lutar (lutei) pelas minhas amizades, eu insisto (insistia) por que um dia elas fizeram os deuses/ os anjos/ os espíritos de luz/ eu acreditarem em tal amor e sou do tipo de pessoa que cobra o que me foi prometido, infelizmente!

Acho a maior covardia é alguém abandonar outra sem uma explicação, uma conversa ou um motivo, visto que acredito que o amor pode acabar (por motivos que não vem ao caso citar) seria muito mais fácil saber o porquê do abandono do que ser simplesmente jogada em algumas esquinas do mundo!

Costumo dizer que uma relação para ser constituida como tal, seja entre namorado/ família/ amigos, precisa de TROCA, de RECIPROCIDADE, entre duas pessoas no mínimoe eu cansei de amar sozinha. Estou na fase de sair pelas ruas coletando meus pedacinhos e de ter crises de solidão.

Não sei se é amor o que eu sinto por tais amigos, talvez seja, até porque se odiamos ou ficamos magoados com uma pessoa é porque ainda nutrimos algo por ela, deve haver alguns resquícios de sentimento nas partes de mim que ainda me restam (tem sim), porém quero exorcizar qualquer coisa que venha me deixar triste, quero ser indiferente, quero ser completa.


"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
O Pequeno Príncipe