Com outros olhos

A todo momento espio a vida de uma menina, espio mesmo a ponto de pensar que ela sou eu, ou eu ela, não sei bem ao certo. Ela é pequena, medrosa e solitária ao mesmo tempo que é forte, profunda e sincera. Ela se acha diferente, mas em um filme ela começou a questionar o quão diferente seria quando em uma cena uma personagem perguntou "quem não se acha diferente?", com isso ela percebeu o quanto os seres humanos são iguais em tantos aspectos.

Ultimamente a tenho visto derramar muitas lágrimas e pensei comigo mesma que se para cada lágrima derramada um sorriso de um criança fosse dado, o mundo seria mais feliz, o mundo seria mais bonito mesmo que constituído com base na sua tristeza, ela não se importaria, tenho certeza.

Um dia tive o desprazer de observar também a sua família, percebi que são bem maiores que ela e quando ela está perto deles, quase não aparece, não sei se isso só acontece no meu imaginário ou se realmente é assim, as vezes é difícil separar o concreto do abstrato, o certo do errado, o bem do mal. Percebi que as lágrimas mais pesadas são expelidas quando alguns familiares despejam algo cruel e sem vida em cima dela, olhei direitinho e vi que eram palavras sendo jogadas, que estranho. Quando algo assim acontece eu vejo um comportamento estranho nela, ela fica com as mãos estendidas como se estivesse procurando algo no escuro, mas está claro e nada há ali, só esperança, acredito.

Quando ela não encontra o que procura é que chora mais ainda, é tanta angústia que até eu posso sentir. Um dia prestei atenção em uma conversa que ela tava tendo no espelho, não entendi no começo, mas depois percebi que ela falava sobre as mãos estendidas, entendi que ela procura por um muro quando está triste, esse muro era o seu amparo, seu descanso, ela amava o muro, mas o muro também se tornou maior do que ela e ela não o mais reconhecia, ela dizia no espelho que fez o que poderia ter feito para que ele permanecesse ali, que o pintou, que o entendeu, que o fez de mural e colou só as coisas mais bonitas para que ele ficasse feliz, mas que nada deu certo e que o muro estava aumentando seu sofrimento, ela teve que o destruir, ela não queria, mas precisava. Fiquei em silêncio, imaginei o quanto deve ser difícil desistir do que se ama, "as vezes é necessário", completei meu pensamento.

O que me encanta nessa menina é a força que ela tem, ela nem sabe o quanto é grande, eu que estou de fora posso observar melhor isso. Nesse momento ela está no fundo do poço, num abismo sem fim, mas ela acabou de gritar de lá que com suas lágrimas irá encher o poço e assim poderá sair dele, que coisa bonita não? tentar achar o lado bom do abismo? Torço muito por ela, para que ela encontre o muro dentro dela mesmo, para que ela seja maior do que qualquer outra coisa.

"Bernardiando"

Foi ai que eu encontrei esse texto e senti uma enorme necessidade de posta-lo!

Eu era sua, a sua menina, a sua criança, a sua mulher, a sua escritora predileta, a sua parceira de dar risada de programas estúpidos que passam de madrugada na TV, a sua namorada sensível que tinha medo de vomitar e de amar demais, assim como você. A sua melhor amiga pra sentar num banco de praça e falar mal de todo mundo, pra perder um trem na Itália e ainda por cima sentar num chiclete fresco ou pra cuidar do nosso porquinho de pelúcia. Eu era a mulher que encaixava a cabeça nas suas costas e sabia que tinha nascido a partir de você, eu era a mulher que esperava sofridamente você voltar mas nunca deixou de te amar mesmo quando você ia.” (Tati Bernardi)

Eu era, do verbo cansei!

A Perda

"Perder é um verbo vago
Pode ser por descuido
Pode ser por estrago
Pode ser que estava escuro
Pode ter sido por descaso
Pode ser no jogo
Pode ser a carteira
Perder queimado no fogo
Ou perder o fogo da fogueira.

A perda é variável
Uma substituível
Outra irreparável
Uma eu esqueço
Tem perda inefável
Tem perda que se perde
Tem perda que é achável
Tem perda que nem nos damos conta
Tem conta que perdemos em aposta
Perde-se a noção quando se fica tonta
Perde-se a visão quando se está nas costas

Há perda injusta
Há perda merecedora
A perda suja
Há perda esmagadora
Perda pra aprendizado
Perda pra amadurecimento
Perda pra sentir calado
Perda pra gritar ao vento
Chinelo, carteira, celular,
Guerra, bingo, jogo de bilhar,
Amigos e farras pra celebrar,
Inimigos que o perdão faz curar.

Diante do mundo não se contabiliza quantas perdas são
Mas mensuro a maior perda a perda do coração
Pois distribuímos pra cada ser que nos cativou
Um pouco de nossa emoção
E quando esses embora se vão
Levam consigo o que antes nos pertencia
Mas faço uma ressalva a algo que nunca se perdia
São as memórias que ficam daqueles que partiram
Não importa se com mágoa ou não
Nada apaga da memória os donos de nosso coração
Pois foi com eles que compartilhamos muito de nossa vida
Em meio a beijos, abraços, brigas e intriga
Foram eles que estavam do nosso lado no primeiro passo tremido
Ou que nos ajudaram com o primeiro coração ferido
Mediante a importância da memória
Viveremos, lógico, o hoje, mas lembraremos do passado com glória
E ainda que a saudade deixe o mais bravo homem ferido
Haveremos de ser felizes pelas memórias do que temos vivido
Pois pior seria se nunca houvesse tido
Tais memórias de momentos tão felizes
E é por isso que mesmo triste
Mesmo que o tamanho dessa tristeza não possa ser aferido
Em meio às lágrimas abriremos um belo sorriso.


Para Amanda Cavalcanti;
Homenagem ao Senhor José Almeida, in memória.
(Autor: Victor Barbosa da Costa)