Setembro...

"Eu vou chorar..."

É o que eu penso só em pensar no que quero escrever. É complicado. Envolve saudade.
O que acontece é que tua ausência continua muito presente. Posso até tocá-la e sentir seu aroma.
Vai fazer dois anos que não estás aqui em corpo, mas parece que você nunca foi embora (e as lágrimas começam a brotar), sei lá, acho que quem perde familiares próximos sublima isso de uma forma que parece que a pessoa simplesmente foi viajar, se fossemos capazes de "cair em si" que aquele corpo nunca mais vai estar ali, acredito que derreteríamos...

Aquele corpo...
O corpo que muitas vezes cuidou das minhas feridas quando eu era uma criança destrambelhada, colocou remédio naquele "dodói" do joelho e fez curativo no dedo da unha que foi arrancada em uma tentativa de jogar futebol com as primas;

O corpo que muitas vezes era visto embriagado e quando eu perguntava onde tu estavas, eu escutava: "norte, sul, leste, oeste..." Eu também ia buscar esse mesmo corpo nos bares da vida (daria tudo para ir te buscar hoje lá).

Lembro do teu corpo vendo a televisão e xingando todos os atores, apresentadores e jornalistas, ninguém prestava. Corpo que eu ia chamar no quarto toda vez que começava o futebol depois da novela das 21:00 e que era companheiro do meu corpo nos jogos do náutico, santa ou Brasil. Era maravilhoso torcer contigo mesmo você calado e eu fazendo escândalo (que saudade).

E o teu corpo me trazia coca-cola, me trazia apito do galo da madrugada no carnaval, me trazia zelo. Teu corpo, mesmo não demonstrando muito, me amava e depois de algumas doses me fazia até discursos e nós cantávamos e nós dançávamos e eu me lembro do dia em que li o primeiro capítulo d'O Pequeno Príncipe para você. Os copos em que repousavam tuas doses ainda estão na estante...

É tão bom saber que o senhor sempre se orgulhou de mim, é tão bom lembrar do seu corpo saindo da mesa do almoço para me dar os parabéns quando eu voltei do listão da UFPE chorando por meu nome estar lá.

E nesse corpo já não habita tua alma. Esse corpo eu vi inerte, esse corpo eu vi sendo escondido. Você foi embora tão cedo e a última palavra que eu ouvi da sua boca foi "amém"...

Como eu queria poder te falar tudo do palhaço-terapia, queria vestir minha roupa e poder te encontrar...
Ontem foi a formatura de uma amiga e vi várias pessoas entrando com os pais, eles todos orgulhosos, eu entraria com você e mainha...
Como eu queria receber tuas ligações quando eu não estou em casa para falar sobre o péssimo jogo do Brasil, como eu queria te escutar me mandando comer.

Eu te amo vô!

Conversa de botas batidas.

"Você está perdendo a poesia..."

Foi essa frase que estava na minha cabeça hoje, frase dita há tantos anos, depois de tantos atos que eram nossa poesia pessoal. Pois é, a verdade é que eu não entendo muita coisa que aconteceu, não sei dizer o que era em ti verdade e o que era só imaginação; não sei se o que dizias era o que sentias ou se tudo não passava de uma mera obrigação que você mesmo colocou nesse sentimento, que era nosso! O que eu sei de verdade é que tudo que era direcionado a mim hoje é direcionado, do mesmo jeito, para outra pessoa, acredite, são as mesmas palavras de carinho, são os mesmos apelidos, talvez seja até a mesma intenção, e há a mesma frase "talvez o antes não fosse amor". O que é amor afinal? Aquilo que se sente quando se quer (ativando um botãozinho que fica quatro dedos abaixo do umbigo) excluindo tudo que já tenha sido "amor"? É algo que se constrói a medida que se vai conhecendo o outro ou é algo tão estranho que se torna perda de tempo tanta-lo entender?

Eu realmente só posso falar do que é o amor para mim, nas minhas regras eu te amei e ainda hoje é difícil imaginar sentir esse tipo de amor por alguma outra pessoa. Acredito também eu nem queira amar de novo assim, porque quando esse tipo de amor vai embora é complicado e talvez, por respeito a tudo que se viveu, não preciso viver algo na mesma intensidade, pode ser algo mais leve... Sim, eu me permito amar novamente e acredito que isso é possível, pois nas minhas regras amor é algo construível, só não sei ainda como demolir, mas isso também é algo que se aprende...

Hoje o meu olhar me disse que o seu não havia morrido e isso foi estranho, estranho porque é totalmente o contrário daquilo que tu pregas, estranho porque mesmo longe eu podia ler alguns dos seus pensamentos, estranho porque parecia que nada de ruim tinha nos acontecido e parecia tão simples recomeçar. Só parecia.

A poesia nunca é perdida, pensei.
Só é difícil escrevê-la na forma culta da língua portuguesa.
Só é difícil achar a rima perfeita.
Só é difícil parar para tentar entender o mínimo que ela pretende dizer.

Ai eu pensei na quantidade de poesias que não foram escritas por falta de dedicação e entrega, pensei na quantidade de sorrisos e admiração que elas poderiam despertar nas pessoas caso tivessem a mínima chance de vir a existir.

Não faltavam canetas, pensei.