"Olha esse sorriso tão indeciso, tá se exibindo pra solidão..."

Hoje andando pelas vielas do facebook me encontrei com duas histórias distintas que, na verdade, pareciam ser irmãs gêmeas, as feições eram tão iguais que pensei ser o mesmo sorriso, confundi e deduzi que ali residia o mesmo brilho no olhar. Talvez resida. Talvez resista. O que hoje vos falo é sobre a nossa capacidade de naturalizar coisas tão ruins, aprendemos a não olhar o que (pode talvez) nos chocar. Hoje conheci a história do Allison que nada tinha além de um pacote de amendoins, ele, que nada tinha, ofereceu tudo que tinha a um gringo qualquer. Conheci também a história do Guilherme que só queria ter seu coração eternizado e congelado em uma foto! :)

Guilherme e seu coração. Fonte: Fanpage Razões para Acreditar
Cara, são tantas as histórias que existem por ai dormindo nas ruas frias, são tantos os sorrisos e corações congelados, não numa foto, mas num dia de inverno. E os nossos olhares? Esses estão congelados e focados nos nossos interesses pessoais! Olha essa foto do Guilherme mais uma vez e pensa em tantos Guilhermes que existem por ai, quais serão seus sonhos? O que será que ele pensa ao dormir? Será que ele já teve um amigo imaginário ou se imagina invisível nesse vasto mundo vazio? Será que ele escolhe entre comer na bob's ou na mcdonald's? Qual será que foi sua maior decepção na vida? São tantas questões... 

Eu andando depressa hoje pelo centro da cidade um homem me pediu dinheiro, eu nem o olhei nos olhos, eu nem o dei a chance de ter seu sorriso ou olhar congelados na minha mente. Acho que quando ele terminou a frase meus passos já estavam no parágrafo seguinte.

E quantas outras vezes eu não fiz isso? Quantas outras vezes não fizemos isso? Às vezes a única forma de dizermos ao outro que estamos notando a sua existência é fugindo dele e indo para o outro lado da rua com medo de sermos assaltados. A gente exclui na mesma rapidez com que piscamos os olhos e é nessa breve pausa (eterna para eles) que negamos ao outro o direito de pertencer a este mundo, não que seja um bom lugar para habitar. 

Enquanto eu estava indo fazer a minha carteira de estudante universitária tantas outras vidas se questionavam sobre o que iriam comer naquele dia, pois não são todos que como o Allison possuem amendoins. Tantas vidas vivendo nas ruas, vidas que ~todos os dias~ são recebidas com olhares de desprezo e nojo por outras vidas, vidas que crescem vendo os outros indo comprar roupas, tomar sorvete, passear no parque 13 de Maio com os filhos num dia ensolarado de domingo, vidas que aos 6 anos de idade se drogam e a única coisa que fazemos é dizer, com a nossa testa enrugada, que o mundo está perdido. Na verdade quem se perde é a gente no nosso discurso hipócrita e no nosso egoísmo em liquidação. 

A maioria dessas vidas são reconhecidas apenas quando cometem algum crime e, depois de todas as formas possíveis e imagináveis de exclusão que exercitamos contra tal ser, somos os primeiros a dizer que ele merece morrer, ser espancado, ser, não diferente de antes, tratado como um lixo qualquer, como um objeto de valor irrisório, como um nada. E mais uma vez não refletimos sobre o que a sociedade faz com seus herdeiros, mais uma vez excluímos e nos fechamos no nosso mundinho de merda. Meu Deus, eu sou uma vergonha.

Antes de achar o Guilherme um fofo pense em todos os outros Guilhermes que você chamou de trombadinha e marginal pelo simples fato dele não poder exercer seus direitos e deveres como você. Pelo simples fato da roupa dele ser suja e rasgada. Pelo """"""""""""""""""simples""""""""""""""""""" fato dele descansar sua existência em um pedaço de papelão na noite do sábado em que você ficou em casa porque estava chovendo demais... 

Desculpa Guilhermes.
"Guilherme me pediu: 
'Tio, não apaga a foto não tá?'. 
Pra finalizar Guilherme disse: 
'não sou de tirar foto não, mas hoje o dia tá lindo'."


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