Existo ou desisto?

(Sempre)
Eu erro
Eu tenho pressa
Tenho defeitos
Ajo de mau jeito
Eu sou humana  -

(Eventualmente)
Eu tenho crises de choro
Eu grito
Eu xingo
Eu quebro
Não sou de ferro -

(Acontece...)
Eu reclamo
Eu humilho
Eu cobro presença à tua ausência
Eu me vingo e me ajoelho implorando teu abrigo
Sou assim contraditória  -

(Às vezes)
Eu sinto inveja
Eu não entendo
Eu não escuto
A tua existência não percebo
Sou intolerante
Desculpa te desapontar
Pelo menos pude rimar  –

Não acho feio ou doentio os meus labirintos; patológico é andar sempre em círculos a procura do próprio rabo por não conhecer suas bordas e limites. Às vezes o nosso maior erro é negar a imagem feia que reflete e vomita o espelho. Buscamos a perfeição, mas somos incapazes de respeitar os nossos próprios “não”  –
Sou o avesso
Moro na contracapa
Escuto o meu lado b
Existo num sopro
Vou e voo com os pés no chão
Eu sou só um grão

(Eu me nego a negar quem sou)


"Me olha da onde estiver que eu vou te mostrar que eu to pronta..."

Geralmente a saudade não me invade tanto ao ponto de eu notar que o senhor não está mais aqui, a saudade é leve, como se fosse de uma viagem ou uma saída rápida. Eu não sei porque, mas já conversei com pessoas que também perderam familiares (tão) próximos e todas concordaram comigo ao dizer que parece que tais pessoas não morreram, eu não sei bem explicar, é como que se "a ficha caísse" seria insuportável a dor. Isso também não tem nada a ver com vida após a morte ou céu e inferno, na verdade eu não quero criar expectativas com o que existirá após a minha morte, tento deixar a vida me surpreender por agora (fecha parênteses). No meu dia a dia eu ajo como se o senhor não tivesse morrido ou até mesmo como se nunca tivesse existido (desculpa), quando digo "nunca existido" não falo sobre não sentir a sua falta ou não lembrar de você, eu só não sei explicar, pode ser até mecanismo de defesa mesmo, enfim. Estou sentindo a sua falta e não é (só) porque o seu aniversário é daqui a pouco. Sinto sua falta porque seu silêncio está tão presente, e ele grita; sinto sua falta porque onde era festa, agora é fuga. Eu só sinto sua falta. Queria deixar escrito aqui porque o tempo pode passar e tenho tanto medo das memórias sobre você saírem de mim, irem embora... Sei que nunca fui de fazer declarações de amor para o senhor, mas eu demostrava isso e isso acalma meu coração, eu dançava com você (quando bêbado, pois sóbrio tu eras bem chatinho rsrs), eu cantava com você, eu quebrava o gelo do whisky para você, eu te amava. Eu te amo. Não consigo escrever nenhum texto sobre você sem chorar, talvez porque quando a ficha cai eu sou atacada por tantas memórias, e a saudade está (verdadeiramente) ali, que até as coisas que antes eram ruins, hoje nem são, eu queria as coisas ruins. Como amo as coisas ruins. Eu te amo. Estou sentindo a sua falta porque só você brigava comigo por ser tão escandalosa vendo um jogo. Estou sentindo a sua falta porque não existe mais televisão na garagem e família reunida. Estou sentindo a sua falta porque o último bolão da copa que tinha seu nome foi em 2010. Estou sentindo a sua falta porque o senhor cuidou de mim. Estou sentindo a sua falta porque hoje quando amanheço o dia estudando ou vendo filme ninguém vem arrastando a sandália e dizendo "Amanda rapaz, essa hora? olha a energia". Estou sentindo a sua falta porque ninguém me diz que estou de-fi-nhan-do e que preciso comer. Estou sentindo a sua falta nos detalhes, porque o amor está nos detalhes e hoje, por saber bem o que é isso, sou muito ligada aos pequenos detalhes e presentes que a vida me dá. Eu queria pegar mais uma vez na sua mão quentinha, queria dá mais um beijo na sua careca, queria mais um dia te ver fazendo a barba, queria te pedir mais uma vez para comprar uma coca-cola para o almoço. Queria tanto, mais tanto, acordar com Amado Batista tocando, o senhor na cadeira de balando com o seu boné, meus tios chegando, vocês brigando... Como eu queria, mas não queria mais uma vez, pois não iria saber me acostumar a abrir mão disso tudo de novo. Eu queria todo dia. Porque quando eu quero eu quero muito. E eu já não consigo lembrar do nome ou letra daquelas duas músicas que o senhor cantava...
Sinto a sua falta.



   

Estou em milhares de cacos

Adriana Calcanhotto está cantando no meu ouvido aqui agora. Ela diz que quer que eu volte, que eu vá para algum lugar e quer que eu olhe para ela. Não quero voltar Adriana, repito várias vezes tentando acreditar nas minhas palavras que se solidificam em forma de pensamento. Adriana começa a cantar outra súplica aqui, acho que ela precisa de um abraço, fala de umas cartas que precisam ser devolvidas, "isso é o de menos" penso eu ao ouvi-la. Meio pensativa me pergunto por que que as dores fazem tanto sentido quando traduzidas em canções, textos, em lágrimas? E por que ela é tão convidativa? É como tomar banho em dia frio, você coloca o pé e as circunstâncias te fazem entrar de corpo e alma. Que coisa complicada! Saímos com mais frio ainda e passamos meia hora enrolada em posição fetal esperando e pedindo descontroladamente para o maldito frio ir embora. Vá embora "que o que você demora é o que o tempo leva". Não sei bem ao certo para qual lugar.

Entendo bem essa dor e drama que Calcanhotto vomita, aliás, entendo a minha própria dor. Talvez nem se trate de dor, mas da visualização por outro ângulo da cicatriz deixada, fincada; aquela cicatriz que em dias frios doi, gela, aquela que mesmo tendo sua presença notada psicologicamente é mais concreta do que toda a subjetividade do poeta. Mesmo prestando atenção em todos os meus detalhes e em todas as minhas cores, mesmo divertindo gente e chorando frente as suas palavras, mesmo não negando ao mundo os meus sentimentos e becos sem saídas eu ainda não sei o motivo desta minha perda momentânea da razão ao escutar sobre as contradições e visões enquadradas da cantora em questão. Talvez tenha rolado uma identificação. Talvez. 

Eu aqui expondo tantos questionamento e pensando em tantos argumentos me viro para Adriana e ela está submersa no mundinho egoísta da sua dor, só faz perguntar pelo seu amor. "Meu amor cadê você? eu acordei não tem ninguém ao lado". Acho que o amor da Adriana já tem outro amor, acho que ele está habitando outra cama, outra alma . É sempre assim. E se é para falar de amor eu bem sei, nossa como eu amei, me lembro bem de como me sentia especial em poder sentir algo tão grande e tão frágil ao mesmo tempo, lembro do orgulho que tinha em ser a namorada dele. Sabe quando você consegue pegar a palheta do seu cantor favorito do mundo e sente o maior orgulho de si? ou então aquele orgulho de ter seu livro autografado pelo autor que te arrancou lágrimas e sorrisos com as suas palavras? Pronto, eu amei e tinha esse sentimento de que eu iria transbordar a qualquer momento de tanto orgulho... 

O tempo e o orgulho passaram e eu percebi que a palheta era de plástico e que o autógrafo resultava do movimento de uma caneta no papel, movimento este reproduzido em tantos outros papeis só tendo a preocupação em modificar o nome para quem a dedicatória foi direcionada. É neste momento, nesta breve pausa entre o real e o imaginário, que a gente se pergunta se amou a pessoa ou o valor -indevido- que direcionamos a elas. Palheta se perde, livro de molha e as palavras se desfazem.

"Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?"

É Adriana, sei bem como é estar em milhares de cacos, já estive. Hoje sou remendos. E como um todo remendado não sei onde acaba os limites das minhas fronteiras. Não sei até que ponto suas músicas falam de mim e muito menos onde meu texto se encaixa nisso tudo. Você se pergunta pra quem canta, eu para quem escrevo.


 
Fanpage Mônica Crema