Estou em milhares de cacos

Adriana Calcanhotto está cantando no meu ouvido aqui agora. Ela diz que quer que eu volte, que eu vá para algum lugar e quer que eu olhe para ela. Não quero voltar Adriana, repito várias vezes tentando acreditar nas minhas palavras que se solidificam em forma de pensamento. Adriana começa a cantar outra súplica aqui, acho que ela precisa de um abraço, fala de umas cartas que precisam ser devolvidas, "isso é o de menos" penso eu ao ouvi-la. Meio pensativa me pergunto por que que as dores fazem tanto sentido quando traduzidas em canções, textos, em lágrimas? E por que ela é tão convidativa? É como tomar banho em dia frio, você coloca o pé e as circunstâncias te fazem entrar de corpo e alma. Que coisa complicada! Saímos com mais frio ainda e passamos meia hora enrolada em posição fetal esperando e pedindo descontroladamente para o maldito frio ir embora. Vá embora "que o que você demora é o que o tempo leva". Não sei bem ao certo para qual lugar.

Entendo bem essa dor e drama que Calcanhotto vomita, aliás, entendo a minha própria dor. Talvez nem se trate de dor, mas da visualização por outro ângulo da cicatriz deixada, fincada; aquela cicatriz que em dias frios doi, gela, aquela que mesmo tendo sua presença notada psicologicamente é mais concreta do que toda a subjetividade do poeta. Mesmo prestando atenção em todos os meus detalhes e em todas as minhas cores, mesmo divertindo gente e chorando frente as suas palavras, mesmo não negando ao mundo os meus sentimentos e becos sem saídas eu ainda não sei o motivo desta minha perda momentânea da razão ao escutar sobre as contradições e visões enquadradas da cantora em questão. Talvez tenha rolado uma identificação. Talvez. 

Eu aqui expondo tantos questionamento e pensando em tantos argumentos me viro para Adriana e ela está submersa no mundinho egoísta da sua dor, só faz perguntar pelo seu amor. "Meu amor cadê você? eu acordei não tem ninguém ao lado". Acho que o amor da Adriana já tem outro amor, acho que ele está habitando outra cama, outra alma . É sempre assim. E se é para falar de amor eu bem sei, nossa como eu amei, me lembro bem de como me sentia especial em poder sentir algo tão grande e tão frágil ao mesmo tempo, lembro do orgulho que tinha em ser a namorada dele. Sabe quando você consegue pegar a palheta do seu cantor favorito do mundo e sente o maior orgulho de si? ou então aquele orgulho de ter seu livro autografado pelo autor que te arrancou lágrimas e sorrisos com as suas palavras? Pronto, eu amei e tinha esse sentimento de que eu iria transbordar a qualquer momento de tanto orgulho... 

O tempo e o orgulho passaram e eu percebi que a palheta era de plástico e que o autógrafo resultava do movimento de uma caneta no papel, movimento este reproduzido em tantos outros papeis só tendo a preocupação em modificar o nome para quem a dedicatória foi direcionada. É neste momento, nesta breve pausa entre o real e o imaginário, que a gente se pergunta se amou a pessoa ou o valor -indevido- que direcionamos a elas. Palheta se perde, livro de molha e as palavras se desfazem.

"Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?"

É Adriana, sei bem como é estar em milhares de cacos, já estive. Hoje sou remendos. E como um todo remendado não sei onde acaba os limites das minhas fronteiras. Não sei até que ponto suas músicas falam de mim e muito menos onde meu texto se encaixa nisso tudo. Você se pergunta pra quem canta, eu para quem escrevo.


 
Fanpage Mônica Crema







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