O feminismo que eu sigo

"Emma Watson foi recentemente nomeada Embaixadora da Boa Vontade pela Organização das Nações Unidas. Como tal, lançou a campanha #HeForShe em pró da igualdade dos direitos entre gêneros. Em seu discurso ela aponta a importância da participação dos homens na campanha anti-sexista." O vídeo do discurso feito pela atriz foi o que me fez querer escrever sobre o feminismo que eu sigo por aqui!

Tempos atrás, quando me perguntavam se eu era feminista, eu tinha muito receio em dizer que sim. Eu dizia que o feminismo era muito grande e que tinha muitas correntes, as quais eu desconhecia, e que muitas vezes brigavam entre si. Meu único receio era pelo fato de eu não seguir um feminismo cheio de referenciais teóricos concretos, bibliografias, etc etc etc; sempre tive receio com esse campo científico que me obriga a usar o nome de alguém antes de falar sobre o que acredito. Claro que o feminismo que eu sigo foi dito e vivido por muitos pesquisadores, mas eu não sou obrigada a citá-los para ter credibilidade com as palavras, não quero estar certa, mas, ao menos, viver e lutar por aquilo em que eu deposito minha confiança.

Eu percebi que era feminista quando entrei na universidade, mas eu já era. Assim como Emma Watson, aconteceram várias coisas que me permitiram ter essa certeza há alguns anos atrás! Quando eu tinha nove anos um grupo de indivíduos (outras crianças) da minha escolinha, na minha interiorização foi a escola inteira, me segurou para um menino poder me beijar, com a finalidade de me livrar de todas aquelas mãos, precisei dar um tapa na cara dele. Quando estávamos na presença da diretora, ela disse que ele poderia me bater no rosto também, pois a escola seguia a política do "olho por olho, dente por dente". Ele não aceitou. Sim, eu sei que éramos crianças, mas o fato do tapa ter sido mais preocupante do que o outro fato de todas as crianças terem me segurado para o menino poder me beijar me preocupa muito, afinal de contas, educação é algo que se aprende desde cedo!

Desde cedo, quando me mandavam engordar, eu dizia que ser magra estava bom, pois eu não queria ser chamada de gostosa na rua. Mas na pré-adolescência eu estava  indo à praia com minha mãe e minha prima e um homem me chamou de "maguinha gostosa", minha mãe ficou com muita raiva e eu com muito medo dela ir falar com ele, pois quando criança aprendi que não se deve falar com estranhos, principalmente se for um homem. Se tiver com dúvidas ou perdida procure uma mulher, de preferência com filhos ou um senhor com cara de avô. Hoje eu sei que independente do meu corpo e das minhas roupas seria e, infelizmente, sou invadida no meio da rua por olhares e palavras desconfortáveis. 

A relação entre "ser mulher" e "ser propriedade de todos" desgasta, machuca, invade.

Sim, eu sou feminista e tenho MUITO orgulho disso! Ainda me incomodo por muitas vezes ser vista como a "chata que vê machismo em tudo", mas só pela denominação de chata, queria que o machismo e suas múltiplas faces fosse algo mais óbvio no meu ciclo. Como a atriz de Harry Potter disse, o nome FEMINISMO está espantando muita gente, mas o nome pouco importa. Se trata de direitos iguais, olhares iguais, respeito igual, sabe?!

Eu não sou contra maquiagem, silicone, plásticas ou qualquer outra coisa que tenha como base argumentos pautados em uma sociedade machista, não sou! Acredito que a maquiagem é a máscara que menos esconde, afinal podemos estar com a cara lavada e preenchidas pelos argumentos mais sujos e pelos olhares mais hipócritas. Meu feminismo é aquele em que a mulher é livre para se maquiar ou não, colocar silicone ou não, fazer uma plástica ou não; e tudo isso feito tendo como base o querer e a liberdade. Luto para que essas coisas não sejam feitas por obrigação ou por sentimentos de invisibilidade diante das "demandas" do mundo. Conheço homens que se maquiam, que fazem a sobrancelha e que se depilam. Conheço mulheres que não se maquiam e que deixam seus pelos crescerem. Conheço mulheres que não saem de casa se não estiverem maquiadas e devidamente depiladas. Qual é o problema disso? NENHUM (pra mim). 

Acredito que o problema está na mulher que, quando usa maquiagem, acha que só é "mulher de verdade" aquela que se arrumar. Acredito que o problema está presente quando a mulher que não se maquia se acha superior por não precisar "se esconder" para se sentir amada. O problema é esse sentimento de superioridade, entende?! Acredite, o meu batom vermelho e minha perna depilada não me torna menos feminista.

Essa semana eu escutei um familiar meu dizer que as atrizes não são mulheres para casar, pois "se agarram com todo mundo, são todas putas". É, doeu! 



Até quando seremos culpabilizadas pelos estupros e violências que nos ocorrem? Até quando ganharemos salários menores? Até quando seremos vistas como o sexo frágil? Homens, chorem! Amem! Cuidem dos filhos! Se maquiem! Sejam livres também. Acredito que essa desigualdade ainda é forte e grande porque além de machistas, somos egoístas e não nos revoltamos até que isso nos machuque profundamento. Sinto informar, mas já nascemos atingidos e sangrando por conta dessa sociedade opressora!

Enfim, é isso. Sei que meu texto não tem grandes citações, mas estou exercendo a minha liberdade aqui.

"Nem vem tirar
Meu riso frouxo com algum conselho
Que hoje eu passei batom 
vermelho"










"Quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar..."

Ela estava andando por aquele caminho que já tem seus passos tatuados, sim, por aquele mesmo percusso já feito tantas outras vezes quando ela era mais nova e também agora, depois de carregar vários labirintos nas costas - e dentro de si. Cada passo dado fazia nascer alguma lembrança outrora perdida dentro da bagunça que era a sua vida, as memórias eram muitas e em tanta abundância que ela até se envergonhou diante dos olhares que pareciam escutar suas vozes interiores. Aqui era uma loja de material escolar, aqui uma bomboniere, a qual sua avó já saiu sem devolver o troco da mercadoria que veio a mais, aqui parecia ser tão grande quando eu era pequenininha.

A volta pra casa foi preenchida igualmente por tamanha introspecção. A verdade é que ela vinha tendo essas lembranças de quando as coisas pareciam ser mais fáceis e o biscoito do lanche da tarde mais saboroso. Lembrava claramente das tardes em que fingia dormir para que a sua avó não lhe arrancassem os dentes, lembrava do disco de vinil instrumental que era colocado toda vez em que a decoração de natal era distribuída pela sua casa; lembrava, antes de tudo, de todas as vezes que caiu devido a alguma brincadeira e era amparada por aquelas pessoas que a amavam. Como era libertador chegar da escola e ficar só de calcinha vendo sua novela preferida no quarto dos avós...

Já em casa ela sorriu tristemente entendendo o fato de que com os olhos de agora seu passado parecia um daqueles filmes de final de ano em que todos estão muito felizes diante da mesa e repartindo o peru. Em relação ao futuro, ela era muito otimista também e isso era outro fato que lhe deixava abusada, não gostava de ter o brilho no olhar só quando se tratava do passado ou do futuro, mas mesmo diante de várias tentativas de mudança, o aqui e o agora era um eterno vazio, um eterno recordar e planejar. No calendário dela não existia o hoje, só o ontem e o amanhã; isso a estava sufocando...

Todas essas lembranças geraram uma enorme sensação de perda na pequena menina, outra verdade sobre ela é que ela vinha se glorificando e colecionando tais sentimentos de pequenez diante da ausência de coisas que antes eram tão presente, ou seja, diante da fatalidade e fragilidade da vida. Lamentava a perda dos amores, dos familiares, dos momentos que passaram, dos olhares perdidos e das palavras silenciadas e se não houvesse mais nada para lamentar, ela lamentava. A frágil menina aprendeu da forma mais difícil e mais verdadeira que não perdemos o que não temos, aprendeu com as suas próprias quedas e com seus joelhos ralados que diante da vida somos apenas um rio e que as águas sempre nos visitam com a sua fluidez. É preciso praticar o deixar passar!

Achar que é dona das pessoas e ter a ilusão de que tem controle sobre tudo na vida é só mais uma forma de se automutilar neste mundo imprevisível. Os conflitos são, querendo ou não, degraus que nos permitem explorar lugares antes desconhecidos diante das nossas inúmeras profundezas. O que seria da pérola se a ostra fugisse do incômodo do grão de areia? O que seria uma borboleta se ela se recusasse de sair do casulo? Que rosto refletiria no espelho se todas as minhas cicatrizes estivessem ausentes? Será que eu seria a mesma pessoa se todas as minhas perguntas fossem recepcionadas com um sim? Sim, a menina estava mergulhada na piscina das interrogações.

Já na cama, indo dormir, ela sorriu pensando sobre a beleza infinita das reflexões clichês que preenchiam seu quarto naquele instante e naquele breve momento ela tinha intendido que mais importante do que as coisas que são ditas, é a forma e a verdade com que ecoam na nossa alma.

Naquela noite a menina foi dormir feliz e seu único plano era se deixar ser surpreendida pela vida

"Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor..."