"Quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar..."

Ela estava andando por aquele caminho que já tem seus passos tatuados, sim, por aquele mesmo percusso já feito tantas outras vezes quando ela era mais nova e também agora, depois de carregar vários labirintos nas costas - e dentro de si. Cada passo dado fazia nascer alguma lembrança outrora perdida dentro da bagunça que era a sua vida, as memórias eram muitas e em tanta abundância que ela até se envergonhou diante dos olhares que pareciam escutar suas vozes interiores. Aqui era uma loja de material escolar, aqui uma bomboniere, a qual sua avó já saiu sem devolver o troco da mercadoria que veio a mais, aqui parecia ser tão grande quando eu era pequenininha.

A volta pra casa foi preenchida igualmente por tamanha introspecção. A verdade é que ela vinha tendo essas lembranças de quando as coisas pareciam ser mais fáceis e o biscoito do lanche da tarde mais saboroso. Lembrava claramente das tardes em que fingia dormir para que a sua avó não lhe arrancassem os dentes, lembrava do disco de vinil instrumental que era colocado toda vez em que a decoração de natal era distribuída pela sua casa; lembrava, antes de tudo, de todas as vezes que caiu devido a alguma brincadeira e era amparada por aquelas pessoas que a amavam. Como era libertador chegar da escola e ficar só de calcinha vendo sua novela preferida no quarto dos avós...

Já em casa ela sorriu tristemente entendendo o fato de que com os olhos de agora seu passado parecia um daqueles filmes de final de ano em que todos estão muito felizes diante da mesa e repartindo o peru. Em relação ao futuro, ela era muito otimista também e isso era outro fato que lhe deixava abusada, não gostava de ter o brilho no olhar só quando se tratava do passado ou do futuro, mas mesmo diante de várias tentativas de mudança, o aqui e o agora era um eterno vazio, um eterno recordar e planejar. No calendário dela não existia o hoje, só o ontem e o amanhã; isso a estava sufocando...

Todas essas lembranças geraram uma enorme sensação de perda na pequena menina, outra verdade sobre ela é que ela vinha se glorificando e colecionando tais sentimentos de pequenez diante da ausência de coisas que antes eram tão presente, ou seja, diante da fatalidade e fragilidade da vida. Lamentava a perda dos amores, dos familiares, dos momentos que passaram, dos olhares perdidos e das palavras silenciadas e se não houvesse mais nada para lamentar, ela lamentava. A frágil menina aprendeu da forma mais difícil e mais verdadeira que não perdemos o que não temos, aprendeu com as suas próprias quedas e com seus joelhos ralados que diante da vida somos apenas um rio e que as águas sempre nos visitam com a sua fluidez. É preciso praticar o deixar passar!

Achar que é dona das pessoas e ter a ilusão de que tem controle sobre tudo na vida é só mais uma forma de se automutilar neste mundo imprevisível. Os conflitos são, querendo ou não, degraus que nos permitem explorar lugares antes desconhecidos diante das nossas inúmeras profundezas. O que seria da pérola se a ostra fugisse do incômodo do grão de areia? O que seria uma borboleta se ela se recusasse de sair do casulo? Que rosto refletiria no espelho se todas as minhas cicatrizes estivessem ausentes? Será que eu seria a mesma pessoa se todas as minhas perguntas fossem recepcionadas com um sim? Sim, a menina estava mergulhada na piscina das interrogações.

Já na cama, indo dormir, ela sorriu pensando sobre a beleza infinita das reflexões clichês que preenchiam seu quarto naquele instante e naquele breve momento ela tinha intendido que mais importante do que as coisas que são ditas, é a forma e a verdade com que ecoam na nossa alma.

Naquela noite a menina foi dormir feliz e seu único plano era se deixar ser surpreendida pela vida

"Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor..."












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