Carta sobre 2015

Hoje tive a sensação de que as notas de agradecimentos aos anos que estão indo embora estão cada vez mais preenchidas de reclamações, frustrações e desespero. Nenhum ano está sendo suficiente e sempre evidenciam as mortes, as perdas e tudo que não deu certo. Não é que eu seja um poço de positividade, estou muito longe disso, mas esses escritos e discursos estão me deixando -um pouco- preocupada e cansada! Sei lá, a sensação que dá é que a vida está cada vez mais longe do humano e tudo está muito mecânico e robotizado. Se eu quero algo, tem que ser agora. Tem que ser do meu jeito. Tem que ser e ponto. E se eu não conseguir sou a pessoa mais sofrida do mundo e nunca mais terei uma chance de novo. Talvez as pessoas nem pensem em tudo isso ao evidenciar tudo que não deu certo, mas as reclamações são tantas que é essa a impressão. Me parece que a caminhada não importa, só onde se quer chegar. Só o fim, nunca o começo ou o caminhar.

Eu acredito que temos a possibilidade de escolher onde queremos estar e, se queremos tal lugar, cabe a nós buscarmos. Eu acredito que, por mais que eu queira uma coisa, ela não vai cair do céu, mesmo que eu acredite muito no poder que existe no simples e poderoso ato de acreditarmos. Eu acredito que muita coisa ruim acontece, está acontecendo e sempre acontecerá na minha vida e no mundo todo, mas eu ainda posso escolher para onde olhar e focar, eu posso escolher sofrer eternamente ou aprender com a possível derrota e erros, pois eles existem e também fazem parte de quem sou e de onde estou. Não, nada disso é fácil e dói muito ter uma vontade frustrada ou uma frase silenciada dentro da gente, mas isso é a vida; querer que tudo seja sincrônico e perfeito não é a forma mais saudável de lidar com a realidade, na minha opinião.

Esse ano não foi fácil, mas eu aprendi e continuo aprendendo com ele o que eu nunca pensei que poderia aprender em tão pouco tempo. Aprendi com as dores e dessabores dos meus semelhantes e me reconheci em muitos olhares; aprendi a respeitar meus limites e até onde eu realmente consigo ir, a parar quando eu queria ir além. Aprendi a pedir ajuda e a deixar cuidar de mim, não é fácil. Aprendi que o amor é algo leve e que faz muito bem um relacionamento saudável. Aprendi e ainda estou aprendendo que eu não tenho condições de seguir por esses caminhos sem mãos segurando nas minhas. Me vi sendo sombra, me vi e não me reconheci, me vi e me amei. Estou aprendendo a me ver. A me perceber. Tive muitos medos e ansiedades, mas me vi dona da minha vida e se eu não quis estudar, não estudei. Se eu não quis sair da cama, não sai. E almejo seguir me ouvindo. 

Muitas das minhas escolhas e metas não são fáceis, mas são as minhas escolhas e formas que escolhi seguir com a minha vida. Não sou responsável por como me veem, mas sou responsável pela forma que decidir seguir. Se amanhã eu quiser ser diferente, tentarei e buscarei ser. Não esperarei o ano novo, farei o possível para seguir minha voz interior no momento em que ela falar dentro de mim, o que pode ser a qualquer momento. Assim como a vida.

E é por isso e por outros motivos que eu desejo "Feliz Ano Novo" todos os dias, que possamos reclamar menos e ter mais atitudes. Que esperemos menos pelos outros e sejamos o condutor da nossas próprias vidas. Desejo muito impulso e potência para os atuais e futuros voos.


Mas se eu tivesse uma máquina do tempo...

Oi vô, a quanto tempo não nos falamos, não é mesmo? Estou aqui hoje porque, como das outras vezes que te escrevi, a saudade bateu mais forte. Nossa, que saudade de você! Que saudade mesmo. Já se foram quatro anos... tanta coisa aconteceu de lá pra cá e tanta coisa permaneceu intacta, acho que você sabe do que estou falando! Estou na reta final de uma parte muito importante e difícil da minha vida e queria muito você aqui perto vendo tudo isso, isso tudo é por nós, é por todo orgulho que sei que o senhor sentia de mim. Obrigada! Quando começo a duvidar das minhas possibilidades tento lembrar do seu olhar tanto de orgulho quanto de silêncio; tento lembrar da sua forma de apreciar as coisas através do seu modo 'filme do Chaplin' de ser. Você não era de palavras, era de expressões. Era de olhares. Acho que eu nunca te falei isso, mas tenho muito orgulho de ser sua neta, sua filha, aquela que você protegeu de um passado dolorido. Gratidão, vô. Gratidão por cuidar de todos nós como o senhor fez tão só e tão forte. Cada vitória, todas elas, eu também dedico a você, porque você foi uma peça importante demais nesse meu roteiro de vida. 

Eu encontrei uma máquina do tempo que não funciona mais, sim, uma de verdade, mas ela não funciona. Tentei de tudo, mas ela não funciona, infelizmente. Enfim, perguntei a várias pessoas para onde elas iriam, se para o passado ou para o futuro, e sabe para onde eu iria? Iria para fevereiro de 2010 quando cheguei em casa chorando por ter passado no vestibular, você levantou do seu almoço e me encontrou na sala de casa com todo aquele olhar de orgulho e admiração por mim, nunca esquecerei daquela sensação, daquele nosso encontro tão genuíno! Poderia ir também para aquele dia em que o senhor estava bebendo aqui na frente de casa e eu sentei ao seu lado e começamos a cantar alto um bocado de músicas aleatórias. Sem medo do amanhã! Eu iria para qualquer dia em que me fosse permitido te dizer gratidão por tudo e eu te amo. 

Você foi a minha primeira grande perda, vô! Dentre tanta coisa que o senhor me ensinou, essa foi uma das maiores lições: amar a pessoa enquanto temos tempo e buscar ser a nossa melhor versão antes que chegue o duvidoso e doloroso fim.

Eu te amo, como sempre.


50 tons de vermelho

Diante dessa luz baixa, dessa música instrumental de fundo, desse aperto leve e profundo no peito, diante de toda essa história que me veste e me alcança, diante de todos esses medos e faltas e vazios e ecos; diante dessa alma que ainda tem tanto para ser e expandir, diante de todas essas palavras repetidas e do clichê que é a vida, diante dessa rima pobre e desse ritmo puro: eu me rendo. E vou me rendendo com rendas coloridas e, seguindo por caminhos desconhecidos e familiares, remendos vão me cobrindo e me descobrindo mais forte. Sigo dando forma ao meu existir e me desconheço nos reflexos dos cacos de vidro espalhados pelo chão...

Há cansaço. Ando com todas essas feridas expostas ao sol. Vejo-me odiando o sol. Vejo-me questionando o seu papel na minha vida. Eu deveria ser a minha maior estrela... Não sei. Talvez eu nunca deixe de arder, talvez eu nunca deixe de doer, talvez a solução seja a eterna dúvida.

Se ao menos eu fosse congruente ou falasse a minha língua de forma fluente eu não iria aos lugares que não combinam com os meus passos, eu não falaria por meio de linguagens efêmeras, eu não deixaria o sol me arder, mas é tão difícil se manter sempre na sombra, entende? 

É necessário dar continente ao calor que vale a pena a ardência, pois existem fogos que formam queimaduras que duram uma vida, mas existem outros tons de vermelho que se assemelham ao fluxo de vitalidade que caminham firmes e persistentes pelos labirintos que constituem nosso corpo.

A vida não é sobre doer ou não doer. Sempre doerá. A questão é saber quais são os tons de vermelho que valem a ardência, entende? A questão é ter em mente qual fogo nos aquecerá.

Imagem Google

O meu eu engaiolado

Não. Ninguém é culpado pelos meus desafetos e mau jeito, ninguém é culpado pelos meus medos ou desejos. Somente eu. E isso é algo difícil de dizer em voz alta. Tenta! É sempre mais cômodo e menos doloroso culpar os outros e Os Outros pelas pausas e lágrimas que nos preenchem. É difícil nos responsabilizarmos pelas coisas que nos atingem e machucam; é difícil ignorar humilhações e, muitas vezes, se torna até mais fácil nos vestirmos com os fios que as tecem. Entende?!

A verdade, pelo menos a que aparece para mim neste momento, é que somos os principais suspeitos, culpados e condenados por nos engaiolarmos. Sim, nós nos engaiolamos, prendemos nossas vidas e tiramos a nossa própria liberdade. Somos como os pássaros que cantam, mas não podem voar. A diferença é que somos nós que cortamos e anulamos o valor de termos asas. Para onde voou a nossa capacidade de nos permitirmos a leveza de um voo ameno, sem culpas?

Somos o que nunca fomos e usamos palavras que nunca foram nossas para falar sobre nós. Temos uma necessidade infinita de mostrarmos o nosso eu estático. O nosso eu imóvel. O nosso eu inexistente. Possuímos uma necessidade, quase que vital, de ter um manual de quem somos e de como o mundo é. Talvez isso faça parte da nossa ilusão contínua de que temos o controle das nossas vidas. Será que temos? A vida está me mostrando, cada vez mais, que não.

Só sei que nos engaiolamos cada vez que deixamos o medo falar mais alto; nos engaiolamos cada vez que confundimos a nossa intuição com medo e deixamos de escutar a nossa voz interior; nos engaiolamos, assim repetidamente, quando não enxergamos o hoje e deixamos o passado nos vestir. Nos engaiolamos, da mesma forma, quando nos prendemos ao futuro improvável ou quando vivemos o hoje de forma tão louca que não conseguimos planejar mais nada nas nossas vidas. Resumindo: ficamos entre as grades cada vez que habitamos as extremidades dos pilares que compõem a vida.

Não sei.
Só acho que esse texto era para estar escrito na primeira pessoa do singular.

   

Para onde foi a resiliência?

Em um dicionário qualquer desses online, diz que a resiliência é um conceito da física que significa a "propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica". Como bons humanos demasiadamente humanos que somos, pegamos o conceito emprestado e fizemos uma linda metáfora em relação ao nosso comportamento nesse mundo. Quando no sentido figurado, o conceito significa "a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico". 

Eu fazia parte do grupo de pessoas que acha inspiradora essa palavra, mas de uns tempos, experiências, observações, vivências pra cá venho pensado muito a respeito desse significado metafórico. Na física diz que os corpos voltam à forma original, não podemos negar esse aspecto do conceito, entende? e é justamente esse aspecto que está me incomodando. Será mesmo possível passarmos por tudo isso e ainda retornarmos à forma original que tínhamos? E será que existe uma forma original de nós? Sim, eu acredito que há uma essência que permanece em cada ser, mas não acredito em uma forma original e não acredito que seja possível retornar ao que éramos depois de algumas experiências traumáticas ou até mesmo empáticas. 

Às vezes o que sinto é que muitas pessoas se obrigam a pertencer ao grupo dos resiliente, ao grupo de pessoas que, mesmo passando por um monte de merda na vida e morrendo de vontade de chorar para sempre, compartilham uma imagem no facebook falando sobre a força e sobre a experiência da volta à forma original depois da tal deformação elástica. Não, não tenho nenhum problema com você que possui essa força quase que sobrenatural, só estou tentando dizer que entendo as pessoas que não possuem tal dom. E acredito que mesmo aqueles que possuem tão característica não voltam a essa bendita forma original.

Percebo juntamente o contrário. Muitas pessoas adoecem por não querer sofrer, por não aceitar certas coisas que acontecem, por não entender que nem tudo sempre são flores. Muitas pessoas entram em 'surtos' por serem tão rígidas com a vida, com quem são; fechadas com a tal forma original de si mesmas. Compreende? Muitas pessoas não se permitem aceitar os fins, acham que pedir ajuda é coisa de gente fraca, acham que chorar não é algo para se orgulhar. E nem de longe estou dizendo aqui que sejam coisas simples e fáceis.

Se querem se denominar resilientes que assim o façam, mas por favor, se permitam certas coisas. Por mais dolorosas e rasgantes e cansativas e tenebrosas que algumas experiências são, elas trazem consigo seus ensinamentos. Às vezes, não sei se felizmente ou infelizmente, precisamos passar por certas coisas na vida e eu não vejo como seja possível voltarmos a nossa forma original. Não sou hoje quem eu era antes de nem imaginar perder as pessoas que já não estão perto de mim. Não tenho hoje a mesma forma corpórea de quando eu tinha certos medos e traumas. Não sou aquela que antes se calava frente a certas situações e pessoas. Não sou a mesma depois de cada frustração, celebração, conquista, perdas e vitórias que me vestem hoje e que vão me vestindo. 

Aprendi que há certas deformações elásticas que nos modificam em um processo contínuo. Então, peço que sejamos corpos que fluem, não que se enrijecem. Que tenhamos consciência do casulo que nada mantém, que nada aprisiona. Que possamos chorar, sofrer e ter essa péssima sensação de pequenas mortes diárias que algumas experiências trazem. Que mesmo sabendo que tudo passa, que passemos por tudo isso deixando-nos transformar e não petrificar

Imagem do arquivo pessoal de Hanna Kardenya



O samba malandrinho do meu coração

Eu sou uma mulher cheia de sonhos e todos eles são bem recheados de medo, insegurança, falta de confiança e todas essas coisas que nos impedem de acreditar na vivacidade e na possibilidade deles se tornarem reais. Mas eu tento ir além. Eu sou cheia de pausas e até pontos finais; muitas vezes precisei abrir mão dos meus planos para começar do zero, tive sim, com todas as dores no peito, que abandonar todos aqueles cenários que já possuíam cor e espaço na minha alma; precisei, pouco a pouco, tomar outros caminhos para recomeçar as minhas andanças e reaprendi a dançar ao som das minhas dores. Não foi e não é fácil. Ninguém disse que seria! Precisei ter foco e seguir, com lágrimas ou sorrisos, o que eu realmente queria e querer era uma certeza, menos mal. Eu já repeti inúmeras vezes um acontecimento que doeu só para ver se eu não tinha deixado algo escapar, só para achar qualquer motivo que tornasse capaz a retomada à mesma estrada. E retomei. E doeu mais ainda. Aprendi que a dor não é motivo para desistência e que talvez o que nos faça sair daquela velha estrada seja o fato de sabermos andar de olhos fechados desviando de todos os buracos que almejam a nossa queda. Afinal, me diga, porque se manter entre buracos se é possível a escolha por ruas mais amenas? Chega uma hora que o buraco nos alcança, entende?! mesmo sabendo nós todos os seus possíveis nós.

Não temos o controle total das nossas vidas, ai de nós se tivéssemos. Teve outra fase da minha existência que eu era capaz de fazer de tudo para ser vista, doia rasgadamente cada vez que tais olhares me eram negados, mas aprendi que cada pessoa só olha para o que é capaz e que não dependia só de mim o sentimento que me era direcionado. Eu senti na pele o desamor, repetidamente. Várias vezes acreditei que eu não teria forças para desenhar novas possibilidades de existir. Várias vezes listei todos os motivos pelos quais eu não merecia ser feliz. Repeti, várias vezes, que eu não conseguiria de ir além dos meus planos. Tudo isso várias vezes. E ainda hoje, vez ou outra, caio no mesmo abismo; ainda bem que tal abismo, pelo menos o meu, tem fim. Independente do sentimento de derrota, sempre acreditei no meu nado e lá no fundo, do meu pensamento ou do abismo, eu sei, não importa quando, que voltarei a nadar.

E quando eu estou de volta à superfície meu sorriso é maior do que tudo que foi e não é mais, sabe? Eu deixo, sem arrependimentos, que a felicidade tome conta de mim. Sim, já acordei nas madrugadas barulhentas com o meu coração pesado, a dor era tão grande que a sensação era como se tivesse uma mão envolvendo com força o meu coração. E talvez houvesse mesmo uma mão ali que não fosse a minha. Mas, voltando à felicidade, sou capaz de acordar o mundo com o som do meu coração palpitando um samba bem malandrinho. Pense num órgão malandro esse meu, ele não só bombeia sangue, ele bombeia muita vitalidade.

Enfim, estou aprendendo, porque a vida é esse eterno processo, que os conflitos que nos pausam são os mesmos que movimentam a nossa existência. Eles preenchem as nossas neuroses cotidianas e não adianta tentar viver sem eles. Certo? O que posso fazer é vestir uma roupa bem leve para passar por eles da forma mais saudável possível.

No meio de tudo isso haverá um filme e muita comida na cama, apenas porque eu mereço.
Imagem Google


Você é a estrela que brilha


Não importa o tamanho ou a cor do seu sorriso, ele não resume unicamente quem você é. O mesmo acontece em relação às lágrimas: o choro torrencial ou aquele silencioso que desce tímido, nenhum deles, resume você. Você é muito além do que pode ser visto a olho nu, entende?! Existem coisas na vida que só podem ser sentidas e isso ocorre um pouco com você, um pouco porque suas atitudes e formas de sorrir e cuidar e amar e estar são coisas bem concretas para serem ditas e agradecidas aqui, mas o que você me passa através desse olhar de amparo é algo que palavra nenhuma pode abraçar. E é até pecado tentar monopolizar tais sentimentos em um conjunto de letras, mas eu quis tentar de alguma forma te retribuir, por meio dessas humildes palavras, o bem que você me transmite. Você se assemelha àqueles lugares que transmitem paz, àqueles refúgios que nos filmes as pessoas vão para estar em contato consigo mesmo ou para apenas silenciar. Você é paz. E nem ria ou pense que eu estou enganada, eu sei que você tem defeitos, mas me diga, quem nesse mundo não tem? não se trata de ser perfeita, tem a ver com ser de verdade.

E você é de verdade

eu vejo e só sinto verdade quando estou ao seu lado, é como se a loucura e a hipocrisia do mundo não tivessem te atingido, sabe? Você tem essa pureza e leveza na alma, apesar de qualquer coisa que esteja te acontecendo. Você tem esse cuidado no toque, tem sim, e eu me sinto tão especial ao seu lado, me sinto tão feliz com um elogio seu, porque sei que é de todo seu -enorme- coração, porque sei que não é dito da boca pra fora, porque sei que o objetivo não é agradar, você simplesmente ama. E eu amo você.

Eu sei que algumas coisas e palavras te magoam e que muitas feridas ainda vão se tornar cicatriz, mas você é forte. E ser forte, como estávamos falando hoje, não é aguentar tudo com um sorriso no rosto, pelo contrário, é respeitar teus limites e teus continentes, sabendo a hora de recuar e declarar estado de emergência. Não deixa que nenhum mar invada tua ilha, mas se isso acontecer acredite que eu estarei resgatando tuas preciosas terras, grão por grão, ao seu lado ou sozinha, enquanto você descansa. Certo?! Você não está só.

Gratidão por toda essa amizade que me abraça forte e faz eu acreditar que o mundo pode ser um lugar lindo, habitado por pessoas de verdade. Onde todo mundo parece igual, você é a estrela que brilha.


Eu soul?

Por muito tempo eu fui uma história contada sobre mim
E agora, o que me faz pensar que não sou um mero personagem de um enredo qualquer que me foi dado?
Eu sou aquilo que foi falado, mas que não poderia ser feito.
Sou a fuga para o silêncio das madrugadas que cantavam minha história.
E o que sou fora dessa gaiola?
Sou presa ou pressa?
Quem sou?
Sabe aquelas palavras que eu não pude vomitar?
Sou a acidez delas, sou sua forma ruminada.
Sou o que calo, o que ficou no silêncio, na sombra, no nada.
Tudo aquilo que neguei e me foi negado. 
Eu sou.
Sou todas essas cicatrizes que evidenciam minhas falhas ao mesmo tempo que me deixam mais forte.
Aquele grito dado para dentro que ecoa mais devastador do que qualquer outro som?
 Sou a dor desse grito que não pode ser exorcizado.
Sou o redemoinho existente no que parecia ser um mar ameno e vou arrastando comigo territórios sem bordas.
Aquele pedaço pequeno que foi arrancado de mim e por mim mesma, 
sou eu.
Estou naquela parte calada que precisou trasbordar pela expressão do olhar.
Sou o sono que não pode adormecer.
O desenho interrompido na escrivaninha.
A pausa que me impede de ler o que escrevo.
Sou aquela música que ninguém conhece, mas que todos sabem denunciar e julgar só pelo seu refrão.
Sou o final inexistente deste poema sem rima.
Soul

Modelo e fotografia da amada Hanna Kardenya 

Ela é o oceano, entende?

Eu a conheci. Se eu parasse o texto com esse fato já teria dito muita coisa, pois a presença dela é a do tipo que cala, logo palavra nenhuma traduz a profundeza daqueles olhos, daquela frágil existência; junto dela tudo perde o sentido ao mesmo tempo que é preenchido de diferentes sensações. Ela é o oceano, entende? de longe é silêncio e por dentro interrogação, aquele lugar que acolhe e amedronta ao mesmo tempo, ela é contradição e eu realmente não sei explicar o que me diz aquele olhar; posso dizer que frente a outros mares as águas dela vazam e se derramam no continente do existir. E eu, como agir? Dentro deste cenário, sou apenas um barquinho a deriva, sem rima, sem vida, e que de tão pequeno não entende como pode fazer diferença na imensidão daquelas águas. Ela tem um ar de quem precisa ser salva, não da poluição ou da pesca ilegal, mas dela mesma, pois ela se afoga nas suas próprias águas, ela enjoa e tem refluxo do próprio movimento que lhe cede vida. Consegue compreender o que digo? Ela é um ser que tira de dentro de si o sim e o não; ela é o cais dentro do caos; ela é a semente do seu próprio fruto. Talvez eu esteja condenada por tentar decifrá-la com essas ínfimas sílabas, mas eu precisava tentar, pois estar junto dela é entender a nossa grande insignificância diante da inefável vida que existe independente da gente. Não somos nada. E eu tenho certeza disso cada vez que a vejo morrer aos poucos, é como ver o oceano atlântico secar à conta-gotas. Devastador. Porém, tudo isso muda quando ela sorri e por um momento eu deixo de ouvir a bomba-relógio que é o seu coração; quando ela sorri parece que vai sair tulipas e orquídeas de dentro dela. Seu sorriso afasta as tempestades e só dá espaço para o cultivo; ela é terra fértil e com aqueles olhos que também sorriem, nem que seja por um breve sopro, tudo é capaz de florescer. E ali, naquele pequeno espaço entre a vida e a morte, a maré se torna palpável, vibrante e envolvente. A moça se deixa sacudir e afasta toda a poeira trazida de fora; ela não tem vergonha da sua diferente  e indiferente estadia pelo mundo, na verdade, ela só não sabe ainda como respirar dentro ou fora do seu mar e enquanto isso vai seguindo do jeito que pode, anda se segurando nas bordas da vida afim de sentir algum tipo raro de confiança e pedala com rodinhas extras para que seus movimentos não sejam duvidosos. Mas duvidosos é o que mais são. Enfim, a moça é poesia e não precisa de rima repetida para se constituir como tal, ela apenas inspira, expira e me inspira.

Imagem do arquivo pessoal de Hanna Kardenya

O encontro de pessoa nenhuma com nenhuma pessoa.



Nos conhecemos naquele dia em que eu me sentia a pior pessoa do mundo, eu sempre fui boa em me sentir assim até chegar a me autossabotar, eu estava no bar sozinha e de cabeça baixa deixei a minha tristeza passear por aquele espaço vazio. Ele se aproximou, se apresentou e ficou tempo suficiente para iniciar uma conversa profunda. Depois de alguns goles, que faziam eco ao cair dentro do meu corpo oco, ele me falou da sua família, dos seus hobbies, nomes dos quatro melhores amigos, todos animais de estimação, e de todas as suas inúmeras viagens. Ele parecia ter saído de um filme intelectual e com todo aquele intelecto conseguia fazer eu me sentir a pessoa mais especial do mundo, depois dele, claro. Eu falava o quanto estava cansada dessa vida de aparências. Ele me dizia que eu tinha uma visão negativa sobre as coisas. Eu falava do quanto perdemos tempo querendo provar o improvável para outras pessoas que, também, já estavam mortas em vida. Ele fazia caras e bocas sem entender o que eu queria dizer - ou se reconhecendo no espelho que eram as minhas palavras. Eu sentia. Seus argumentos soavam para mim como um teatro, um monólogo. Sua postura de Polyanna era apenas ele querendo se enganar, eu conheço essa fase de falar para o outro o que queremos e precisamos acreditar para continuarmos vivendo mesmo nos sentindo derramados e diluídos nesse enorme nada.

Aquele terno. Aquele português culto. Aquelas quatro línguas que ele tão bem falava. Aquele currículo assinado e recomendado por Deus. Aquele pós-doutorado. Tudo isso era desnecessário quando se tratava do que ele me fazia sentir ao lado dele. O que ele me dizia, sem palavras e sem toques, possuía uma linguagem universal. Eu sentia e pensava. Ele é só outra alma solitária junto a minha. Nosso encontro foi assim: pessoa nenhuma com nenhuma pessoa. Estávamos apenas nos enganando ao acreditar que as nossas almas solitárias não haviam se reconhecido. Ilusão. Há coisas que não precisam ser verbalizadas para existirem. 

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Ele pegou o celular e começou a mostrar inúmeras fotografias sobre suas estadias mundo afora. Aqui foi em Berlim no local onde existia o muro. Aqui foi na Suíça. Esse café maravilhoso foi em Budapeste. E assim o monólogo angustiante e repressivo se seguiu. Eram locais lindos, porém o vazio do meu mais novo amigo era a única coisa gritante naqueles retratos; o vazio era a única coisa que eu reconhecia, o único local que eu também já havia estado e habitava naquele exato momento. A última foto do álbum me chamou atenção, mas ele não explicou sobre ela e foi logo guardando o celular. Perguntei em que canto do mundo aquele momento tinha sido congelado. Foi em canto nenhum, é só eu e meu cachorro na minha casa, ele disse. Que irônica é a vida, aquela foto em canto nenhum foi a única em que ele estava acompanhado de um amigo e de um sorriso. Talvez o 'canto nenhum' retrate onde ele deveria estar. Talvez seja o local de encontro com ele mesmo, mas ele não sabe, pois tanto eu quanto ele escolhemos viver onde nos sentimos mortos. 

Desviei meus pensamentos cortantes com um meio sorriso e continuamos a nossa meia conversa bebendo a nossa meia dose. Sim, continuávamos com a nossa meia vida, nossa meia existência, nosso quase nenhum amor próprio. Éramos eternos 'quase', éramos o 'talvez' das frases. A noite terminou com palavras engasgadas e com aquela sensação de que poderíamos ter feito e falado mais. Poderíamos nos salvar. A única certeza que ficou foi a de que estávamos preenchidos pela eterna dúvida de onde residia a felicidade, mas procurávamos respostas no google acadêmico enquanto que aquela foto em canto nenhum traduzia tudo que precisávamos sentir. Amor.


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A importância de se abandonar

"Se abandona e deixa que a música preencha seu corpo". Escutei essa frase há algum tempo e ela me fez refletir. Como se abandonar se escuto tanto sobre a importância do encontro consigo? Pensei. E depois de muito refletir cheguei a uma conclusão sobre o significado da frase. Não, não é hipocrisia. Não dessa vez. O que temos que abandonar é a parte pronta da pessoa que nós somos: nossas palavras prontas, nossa postura, que de tão pronta, já aderiu a nossa forma ou até mesmo nos formou; temos que abandonar esse amor pronto e embalado direcionado ou outro e até a nós mesmos; abandonar essa necessidade de ter tudo sobre controle e acabar perdendo o controle do nosso próprio querer; abandonar essa capacidade inóspita de sermos máquinas do tempo, máquinas que nos tornam incapazes de estar no aqui e agora, máquinas que revertem o valor das coisas e coloca preço nas pessoas, o preço do tempo, o preço do amor. "Difícil é fazer o simples", já dizia o homem gentil. 

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Enfim, se abandone, pois reclamar do ônibus que passou não vai fazer ele voltar. Abandone-se, mulher, que reviver o passado acrescentando "e se" não vai modificar o que aconteceu. Abandona essa mania de querer tantas explicações, pois as interrogações já passaram da validade e não esquece de abandonar também esse orgulho e egoísmo que  ainda te veste na hora da dança, certo? Se abandona, porque às vezes o encontro acontece quando a música transcende e você saí de si, você se encontra consigo quando os teus passos já não te levam aos mesmos lugares e as tuas roupas já não te vestem mais, fica tudo pequeno por dentro, tudo grita por espaço. Nesse momento, neste curto e infinito momento, só te resta o vazio e todas as possibilidades de ser que cabem dentro dele. Então se joga e aumenta o volume, porque a música ainda está tocando e preenchendo esse lugar que não suporta paredes e limites e que, ao mesmo tempo, forma o teu continente e tua fortaleza.

Foto Página da ilustradora Mônica Crema

A vida não tem cura, tem cor.

Velho amigo que saudade de você, da sua existência, da sua luz tão tua, tão nua! Sinto sua falta, viu?! Da última vez em que nos comunicamos você me perguntou como iam as coisas aqui, dentro de mim, e posso te informar que hoje as coisas estão tão preenchidas por outras tantas coisas, entende? Ainda há muito barulho, muito ninho e poluição, mas hoje, diferentemente de outrora, há muito entendimento e leveza. Tem dias, velho amigo, em que me afogo no meu próprio vômito, regurgito tudo aquilo que não consigo digerir e me dirijo, arrastando-me, às novas possibilidades; sim, é difícil levantar, andar, se olhar no espelho e dizer o quanto é importante ter atitude diante da vida, mas a vida é um longo processo, não é mesmo?! e estamos nesse mundo para, única e especialmente, aprender uns com os outros. Queria tanto que você enxergasse isso e fosse em busca da sua evolução pessoal, esse mundo não te veste, esse mundo não te pertence e nós vamos continuar seguindo nossas vidas sem sua presença física, faz parte, eu sei. Eu deixo. Eu te amo.

Em outros dias me vejo tão poluída que os meus poros entupidos me deixam sem ar e me fazem desejar, aos berros, estar ao seu lado, no seu colo, mas não é possível. Habitar o mesmo espaço que o seu seria fugir dos labirintos da existência e o que é isso se não outra forma de morrer em vida? A vida é frágil, meu velho, mas a fuga não é a solução; faz parte, mas não pode ser o fim! Eu vejo que temos tanta pressa que os ensinamentos das situações que nos abraçam estão ficando no meio do caminho; perdidos, líquidos, irrisórios. E vamos nos achando fortes e felizes por não mais nos afetarmos com a vida (e tudo que faz parte dela). Não quero que você faça parte dessa superficialidade, por isso, te digo, que podes ir em paz.

Não vou te dizer para não ter medo, porque o medo faz parte também. A insegurança também. A vida, tão frágil e profunda ao mesmo tempo, não tem cura, meu velho. Nunca existirá uma cura para algo que troca de roupa a cada momento. A vida inflama. A vida contrai. A vida tem movimento. O vazio sempre existirá. Problemas também. Erros? sempre! O que nos ajuda a não enjoar do movimento infinito dessa maré é a nossa atitude diante das ondas que dá vida a própria vida, ela se retroalimenta, vê isso? E isso é belo, mesmo sendo assustador. A vida não tem cura, tem cor. Seja ela qual for.

Enfim, meu velho, eu só quero que você siga; só quero que você nos deixe viver nossos próprios monstros. Você já nos deu muita vida. Você nos deu a sua própria vida e eu te amo por isso e por tudo. Sou eternamente grata pela tua luz que até hoje me ilumina. Amém.

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Um pequeno recado para ela ler ao acordar

Sei que você se chateia quando eu me meto na sua vida, sei que faz de tudo para me afastar, mas nesse momento estou sentindo essa necessidade enorme de falar, desculpa, mas eu sempre te acolho com as minhas palavras proféticas mesmo que elas contenham alguns singelos espinhos. Quero que amanhã ao acordar, antes de preencher essa mente de pensamentos negativos e destrutivos, você leia esse pequeno texto, que é bem simples, mas nasceu da nossa conversa de hoje cedo quando você me listou seus milhares de medo.

Queria entender de onde vem tanto medo, sabia? principalmente de onde vem esse medo monstruoso de errar. Sim, sei que eles fazem parte da vida, mas o problema é que você está os deixando tomar conta dos seus atos, que já são tão poucos devido a tantos outros medos. Não faz isso contigo, menina, logo você que aprendeu a não ter vergonha dos seus erros, hoje os teme tanto que se veste de medo. Acho que você aprendeu bem a evidenciar seus erros, mas aprendeu tanto que se tornou incapaz de entender que nem todos precisam de tanta atenção, você precisa aprender a abrir mão dos medos que arrancam teus cabelos. Entende? Eu consigo perceber o quão aterrorizante é esse novo ambiente, não estou te julgando nem nada, mas você precisa parar para escutar os próprios pedidos de socorro, e os pedidos dos outros, para que a sua resposta seja congruente, até porque não adianta dar respostas aleatórias à vida esperando que ela te ovacione e te cubra de elogios, isso é viver de futuro, menina. Talvez você esteja errando tanto por visar, através dos seus atos, os possíveis acertos e não o inevitável aprendizado, este vem independente do resultado, entende? Para de se auto sabotar e começa a dar o melhor de si nos seus atos lançados ao agora, isso sim é viver no presente.

Se joga nesse mundo, menina. 
Que eu posso segurar a tua mão até que você se sinta em casa.

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Querido amigo,

Querido amigo, você já leu o livro As Vantagens de Ser Invisível? pois bem, o moço protagonista da história escreve cartas a um amigo que, acredito eu, ele conhece, mas o menino, supostamente, não sabe quem é o anônimo remetente. Enfim, tenho coisas para te falar no anonimato, mesmo você me conhecendo, ainda e misteriosamente, tão bem. O que acontece, caro amigo, é que às vezes, só às vezes mesmo, sinto a sua falta, mas a diferença é que agora não há a presença daquela dor latejante e rasgada que me vestia outrora, lembra? Pois é, venho trocando de pele há um tempo e isso pode ser algo bom e ruim ao mesmo tempo, como a vida e suas inúmeras contradições bem como você sabe.

Na verdade, do nada hoje eu fiquei imaginando como seria esse mundo sem você, sem o brilho dos teus olhos pequenos ao sorrir, e  simplesmente o mundo não seria, sabe? Pelo menos o meu mundo não seria mais tão mundo assim. Eu aprendi a te ter de longe, aprendi a te querer bem de longe, aprendi a te criticar e a brigar contigo, nem que seja por pensamento, de longe, aprendi a sorrir contigo de longe, mas eu não seria capaz de aprender tão cedo a saber viver sem a sua existência nesse mundo. Sua existência, e toda a incógnita que a acompanha, é necessária demais. Muita gente chama isso de amor genuíno, já ouviu falar? Eu só chamo de amor.

Você pode estar se perguntando neste momento o porque de eu estar pensando na sua suposta morte e não, nem por um segundo quero que a sua vela se apague. Não é isso, é porque muitas vezes me utilizo deste cenário para entender o valor da vida e das pessoas que preenchem ela, e isso não tem nada a ver com ideação suicida nem nada desse tipo. Sabe quando alguém morre e só ai nós percebemos os valores da pessoa, os quais são muito maiores do que qualquer outra coisa? é mais ou menos isso, eu imagino o cenário e imagino tudo que eu deveria ter dito e feito para a pessoa, como ela está viva, eu vou lá e faço tudo que "imaginei". Deve ser esse o motivo de eu estar te escrevendo esta carta.

Hoje eu vi uma pipa presa em uma árvore bem alta. Achei tudo aquilo tão poético e, imagina só, comecei a narrar o que eu via e sentia, como se eu fosse a voz de fundo de algum filme independente, os filmes de baixo orçamento me encantam; na verdade, tenho essa mania de ficar narrando a minha vida, como e ela fosse mágica ou trágica demais para eu vivê-la em primeira pessoa. Estou pensando nisso tudo sobre mim só agora. Nossa!

A vida é frágil, querido amigo, e muitas vezes eu sou a linha que costura e ressignifica os meus próprios remendos. Estou cuidando de você de longe.

(Quase) Sempre com amor,
Amanda
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Eu escolhi ser primavera

Qualquer tentativa de explicação seria rasa e não encheria teus olhos, também rasos, de emoção, muito menos de boas emoções. Só queria te dizer que tudo que eu fiz, todas as minhas fugas e expressões exageradas, foi para me esconder dos teus olhares de reprovação e do teu abraço sem braços, sem toque. Eu arranquei, pouco a pouco, cada folha minha para que você pudesse enxergar as minhas raízes, mas fiquei com frio e precisei correr para longe do teu vento malicioso. Sim, me despi, fiquei completamente nua ao tentar alguma aprovação tua, mas minhas raízes eram tão finas que o teu fruto venenoso nem se quer abriu espaço para as minhas plantas florescerem, você negou amor às minhas tímidas sementes, sementes essas que você, mesmo sem uma real intenção, plantou. Qual a culpa das minhas pétalas por querer o seu amor? Você não só se negou a me regar, como também riu das minhas folhas amareladas e hoje, no meio dessa floresta densa que me constitui, continuo rasgando e violentando cada folha minha. Até hoje, acredite, não aprendi a ser árvore diante deste sertão que é a vida. Na verdade, eu só queria mesmo que você entendesse que a importância da existência de uma árvore não se dá só pela aparência ou presença de folhas, é na raiz, meu querido cravo, que a força da vida adormece. A raiz permanece se ramificando quando há paredes em torno dela, ela se expande e se apropria do asfalto opressor; a raiz se mantém firme frente ao vento ou a chuva e a brisa, sutilmente, faz essas mesmas folhas rasgadas dançarem. Há música e amor nessas folhas amareladas e quando o meu caule se encontra nu as raízes continuam me sustentando viva à espera de uma nova primavera, porque sim, eu escolhi ser primavera independente dessa tempestade que é você.

Imagem: arquivo pessoal de Pérola Holder


"Aprendi com a primavera a deixar-me cortar 
e voltar sempre inteira." Cecília Meireles

"Somos feitos de silêncio e sons..."

Vou me formando diante de todas essas pausas entre as minhas dúvidas e frente a todas essas certezas incoerentes presentes nas nossas despedidas.

Me remendo com os pedaços de mim existentes nos outros e me completo com os pedaços dos outros que me vestem.

Minhas partes rasgadas são vistas como asas que me permitem voar em busca do sentido da desrazão e esse voo é tão subjetivo, tão silencioso.

Me deito encolhida na frente do espelho para tentar entender a real profundidade da minha condição de falta, de vir a ser. E sou no nada e nada sou.

Aceito minha breve existência nesse mundo e tento aprender com a própria vida o seu sentido próprio, com isso, não vejo motivos para tantos planos e me deixo levar pelos afluentes do vento.

Sofro, choro, grito. Amo, luto, olho! E tudo isso se faz poesia e tragédia dentro de mim. E tudo isso me é.
Viver é sentir o aroma dos sons e escutar o que dizem todas essas fotografias. É ler olhares e tocar, com as pontas dos dedos, o silêncio. É fazer do nada o nosso tudo mais profundo.

O meu viver acontece no fundo do poço e nas bordas do agora. Transbordar quem sou nada mais é do que respeitar meus infernos e meus céus.

A vida acontece nas vírgulas e não na pontuação que nós espera no fim da nossa jornada!

Hoje.

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