Eu escolhi ser primavera

Qualquer tentativa de explicação seria rasa e não encheria teus olhos, também rasos, de emoção, muito menos de boas emoções. Só queria te dizer que tudo que eu fiz, todas as minhas fugas e expressões exageradas, foi para me esconder dos teus olhares de reprovação e do teu abraço sem braços, sem toque. Eu arranquei, pouco a pouco, cada folha minha para que você pudesse enxergar as minhas raízes, mas fiquei com frio e precisei correr para longe do teu vento malicioso. Sim, me despi, fiquei completamente nua ao tentar alguma aprovação tua, mas minhas raízes eram tão finas que o teu fruto venenoso nem se quer abriu espaço para as minhas plantas florescerem, você negou amor às minhas tímidas sementes, sementes essas que você, mesmo sem uma real intenção, plantou. Qual a culpa das minhas pétalas por querer o seu amor? Você não só se negou a me regar, como também riu das minhas folhas amareladas e hoje, no meio dessa floresta densa que me constitui, continuo rasgando e violentando cada folha minha. Até hoje, acredite, não aprendi a ser árvore diante deste sertão que é a vida. Na verdade, eu só queria mesmo que você entendesse que a importância da existência de uma árvore não se dá só pela aparência ou presença de folhas, é na raiz, meu querido cravo, que a força da vida adormece. A raiz permanece se ramificando quando há paredes em torno dela, ela se expande e se apropria do asfalto opressor; a raiz se mantém firme frente ao vento ou a chuva e a brisa, sutilmente, faz essas mesmas folhas rasgadas dançarem. Há música e amor nessas folhas amareladas e quando o meu caule se encontra nu as raízes continuam me sustentando viva à espera de uma nova primavera, porque sim, eu escolhi ser primavera independente dessa tempestade que é você.

Imagem: arquivo pessoal de Pérola Holder


"Aprendi com a primavera a deixar-me cortar 
e voltar sempre inteira." Cecília Meireles

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