Eu soul?

Por muito tempo eu fui uma história contada sobre mim
E agora, o que me faz pensar que não sou um mero personagem de um enredo qualquer que me foi dado?
Eu sou aquilo que foi falado, mas que não poderia ser feito.
Sou a fuga para o silêncio das madrugadas que cantavam minha história.
E o que sou fora dessa gaiola?
Sou presa ou pressa?
Quem sou?
Sabe aquelas palavras que eu não pude vomitar?
Sou a acidez delas, sou sua forma ruminada.
Sou o que calo, o que ficou no silêncio, na sombra, no nada.
Tudo aquilo que neguei e me foi negado. 
Eu sou.
Sou todas essas cicatrizes que evidenciam minhas falhas ao mesmo tempo que me deixam mais forte.
Aquele grito dado para dentro que ecoa mais devastador do que qualquer outro som?
 Sou a dor desse grito que não pode ser exorcizado.
Sou o redemoinho existente no que parecia ser um mar ameno e vou arrastando comigo territórios sem bordas.
Aquele pedaço pequeno que foi arrancado de mim e por mim mesma, 
sou eu.
Estou naquela parte calada que precisou trasbordar pela expressão do olhar.
Sou o sono que não pode adormecer.
O desenho interrompido na escrivaninha.
A pausa que me impede de ler o que escrevo.
Sou aquela música que ninguém conhece, mas que todos sabem denunciar e julgar só pelo seu refrão.
Sou o final inexistente deste poema sem rima.
Soul

Modelo e fotografia da amada Hanna Kardenya 

Ela é o oceano, entende?

Eu a conheci. Se eu parasse o texto com esse fato já teria dito muita coisa, pois a presença dela é a do tipo que cala, logo palavra nenhuma traduz a profundeza daqueles olhos, daquela frágil existência; junto dela tudo perde o sentido ao mesmo tempo que é preenchido de diferentes sensações. Ela é o oceano, entende? de longe é silêncio e por dentro interrogação, aquele lugar que acolhe e amedronta ao mesmo tempo, ela é contradição e eu realmente não sei explicar o que me diz aquele olhar; posso dizer que frente a outros mares as águas dela vazam e se derramam no continente do existir. E eu, como agir? Dentro deste cenário, sou apenas um barquinho a deriva, sem rima, sem vida, e que de tão pequeno não entende como pode fazer diferença na imensidão daquelas águas. Ela tem um ar de quem precisa ser salva, não da poluição ou da pesca ilegal, mas dela mesma, pois ela se afoga nas suas próprias águas, ela enjoa e tem refluxo do próprio movimento que lhe cede vida. Consegue compreender o que digo? Ela é um ser que tira de dentro de si o sim e o não; ela é o cais dentro do caos; ela é a semente do seu próprio fruto. Talvez eu esteja condenada por tentar decifrá-la com essas ínfimas sílabas, mas eu precisava tentar, pois estar junto dela é entender a nossa grande insignificância diante da inefável vida que existe independente da gente. Não somos nada. E eu tenho certeza disso cada vez que a vejo morrer aos poucos, é como ver o oceano atlântico secar à conta-gotas. Devastador. Porém, tudo isso muda quando ela sorri e por um momento eu deixo de ouvir a bomba-relógio que é o seu coração; quando ela sorri parece que vai sair tulipas e orquídeas de dentro dela. Seu sorriso afasta as tempestades e só dá espaço para o cultivo; ela é terra fértil e com aqueles olhos que também sorriem, nem que seja por um breve sopro, tudo é capaz de florescer. E ali, naquele pequeno espaço entre a vida e a morte, a maré se torna palpável, vibrante e envolvente. A moça se deixa sacudir e afasta toda a poeira trazida de fora; ela não tem vergonha da sua diferente  e indiferente estadia pelo mundo, na verdade, ela só não sabe ainda como respirar dentro ou fora do seu mar e enquanto isso vai seguindo do jeito que pode, anda se segurando nas bordas da vida afim de sentir algum tipo raro de confiança e pedala com rodinhas extras para que seus movimentos não sejam duvidosos. Mas duvidosos é o que mais são. Enfim, a moça é poesia e não precisa de rima repetida para se constituir como tal, ela apenas inspira, expira e me inspira.

Imagem do arquivo pessoal de Hanna Kardenya