Notas sobre o agora


Mas o que constitui o fim de algo, se não a possibilidade de um novo começo? Às vezes nos prendemos tanto ao fim de um ciclo que não nos permitimos explorar novos labirintos internos, o que nos faz esquecer do fato de que existem coisas na vida que exigem a retirada da vírgula, que pausa, e a presença do ponto que marca um final. Que saibamos então respeitar os nossos limites que transcendem a questão de saber ou não usar a pontuação e que busquemos uma felicidade que vem de dentro, deixando-a transbordar para fora quando estivermos prontos. Que o nosso maior medo seja o de continuar vestidos com aquelas roupas que não nos cabem mais. Que, além de tudo, a gente se permita, porque a efemeridade da vida torna isso necessário. Entende?
Feliz Ano Novo!


(texto de 2014)

Para onde foi a resiliência?

Em um dicionário qualquer desses online, diz que a resiliência é um conceito da física que significa a "propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica". Como bons humanos demasiadamente humanos que somos, pegamos o conceito emprestado e fizemos uma linda metáfora em relação ao nosso comportamento nesse mundo. Quando no sentido figurado, o conceito significa "a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc. - sem entrar em surto psicológico". 

Eu fazia parte do grupo de pessoas que acha inspiradora essa palavra, mas de uns tempos, experiências, observações, vivências pra cá venho pensado muito a respeito desse significado metafórico. Na física diz que os corpos voltam à forma original, não podemos negar esse aspecto do conceito, entende? e é justamente esse aspecto que está me incomodando. Será mesmo possível passarmos por tudo isso e ainda retornarmos à forma original que tínhamos? E será que existe uma forma original de nós? Sim, eu acredito que há uma essência que permanece em cada ser, mas não acredito em uma forma original e não acredito que seja possível retornar ao que éramos depois de algumas experiências traumáticas ou até mesmo empáticas. 

Às vezes o que sinto é que muitas pessoas se obrigam a pertencer ao grupo dos resiliente, ao grupo de pessoas que, mesmo passando por um monte de merda na vida e morrendo de vontade de chorar para sempre, compartilham uma imagem no facebook falando sobre a força e sobre a experiência da volta à forma original depois da tal deformação elástica. Não, não tenho nenhum problema com você que possui essa força quase que sobrenatural, só estou tentando dizer que entendo as pessoas que não possuem tal dom. E acredito que mesmo aqueles que possuem tão característica não voltam a essa bendita forma original.

Percebo juntamente o contrário. Muitas pessoas adoecem por não querer sofrer, por não aceitar certas coisas que acontecem, por não entender que nem tudo sempre são flores. Muitas pessoas entram em 'surtos' por serem tão rígidas com a vida, com quem são; fechadas com a tal forma original de si mesmas. Compreende? Muitas pessoas não se permitem aceitar os fins, acham que pedir ajuda é coisa de gente fraca, acham que chorar não é algo para se orgulhar. E nem de longe estou dizendo aqui que sejam coisas simples e fáceis.

Se querem se denominar resilientes que assim o façam, mas por favor, se permitam certas coisas. Por mais dolorosas e rasgantes e cansativas e tenebrosas que algumas experiências são, elas trazem consigo seus ensinamentos. Às vezes, não sei se felizmente ou infelizmente, precisamos passar por certas coisas na vida e eu não vejo como seja possível voltarmos a nossa forma original. Não sou hoje quem eu era antes de nem imaginar perder as pessoas que já não estão perto de mim. Não tenho hoje a mesma forma corpórea de quando eu tinha certos medos e traumas. Não sou aquela que antes se calava frente a certas situações e pessoas. Não sou a mesma depois de cada frustração, celebração, conquista, perdas e vitórias que me vestem hoje e que vão me vestindo. 

Aprendi que há certas deformações elásticas que nos modificam em um processo contínuo. Então, peço que sejamos corpos que fluem, não que se enrijecem. Que tenhamos consciência do casulo que nada mantém, que nada aprisiona. Que possamos chorar, sofrer e ter essa péssima sensação de pequenas mortes diárias que algumas experiências trazem. Que mesmo sabendo que tudo passa, que passemos por tudo isso deixando-nos transformar e não petrificar

Imagem do arquivo pessoal de Hanna Kardenya