O meu eu engaiolado

Não. Ninguém é culpado pelos meus desafetos e mau jeito, ninguém é culpado pelos meus medos ou desejos. Somente eu. E isso é algo difícil de dizer em voz alta. Tenta! É sempre mais cômodo e menos doloroso culpar os outros e Os Outros pelas pausas e lágrimas que nos preenchem. É difícil nos responsabilizarmos pelas coisas que nos atingem e machucam; é difícil ignorar humilhações e, muitas vezes, se torna até mais fácil nos vestirmos com os fios que as tecem. Entende?!

A verdade, pelo menos a que aparece para mim neste momento, é que somos os principais suspeitos, culpados e condenados por nos engaiolarmos. Sim, nós nos engaiolamos, prendemos nossas vidas e tiramos a nossa própria liberdade. Somos como os pássaros que cantam, mas não podem voar. A diferença é que somos nós que cortamos e anulamos o valor de termos asas. Para onde voou a nossa capacidade de nos permitirmos a leveza de um voo ameno, sem culpas?

Somos o que nunca fomos e usamos palavras que nunca foram nossas para falar sobre nós. Temos uma necessidade infinita de mostrarmos o nosso eu estático. O nosso eu imóvel. O nosso eu inexistente. Possuímos uma necessidade, quase que vital, de ter um manual de quem somos e de como o mundo é. Talvez isso faça parte da nossa ilusão contínua de que temos o controle das nossas vidas. Será que temos? A vida está me mostrando, cada vez mais, que não.

Só sei que nos engaiolamos cada vez que deixamos o medo falar mais alto; nos engaiolamos cada vez que confundimos a nossa intuição com medo e deixamos de escutar a nossa voz interior; nos engaiolamos, assim repetidamente, quando não enxergamos o hoje e deixamos o passado nos vestir. Nos engaiolamos, da mesma forma, quando nos prendemos ao futuro improvável ou quando vivemos o hoje de forma tão louca que não conseguimos planejar mais nada nas nossas vidas. Resumindo: ficamos entre as grades cada vez que habitamos as extremidades dos pilares que compõem a vida.

Não sei.
Só acho que esse texto era para estar escrito na primeira pessoa do singular.

   

2 comentários:

  1. Lindaaaa! Esse texto não está no singular, pq ele somos nós! Eu, tu e todo mundo! Acredito que todo mundo já se engaiolou ou vai se engaiolar um dia. A gente sabe voar, eu posso voar, a gaiola está aberta e me falta coragem! Quem fala no singular agora sou eu!!!
    Bjo Amiga♡

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    1. Que coisa mais linda! Realmente. E eu acredito também que é até importante esse momento na gaiola, como sabemos ele ajuda a valorizarmos a liberdade de extensão. <3

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