Mas se eu tivesse uma máquina do tempo...

Oi vô, a quanto tempo não nos falamos, não é mesmo? Estou aqui hoje porque, como das outras vezes que te escrevi, a saudade bateu mais forte. Nossa, que saudade de você! Que saudade mesmo. Já se foram quatro anos... tanta coisa aconteceu de lá pra cá e tanta coisa permaneceu intacta, acho que você sabe do que estou falando! Estou na reta final de uma parte muito importante e difícil da minha vida e queria muito você aqui perto vendo tudo isso, isso tudo é por nós, é por todo orgulho que sei que o senhor sentia de mim. Obrigada! Quando começo a duvidar das minhas possibilidades tento lembrar do seu olhar tanto de orgulho quanto de silêncio; tento lembrar da sua forma de apreciar as coisas através do seu modo 'filme do Chaplin' de ser. Você não era de palavras, era de expressões. Era de olhares. Acho que eu nunca te falei isso, mas tenho muito orgulho de ser sua neta, sua filha, aquela que você protegeu de um passado dolorido. Gratidão, vô. Gratidão por cuidar de todos nós como o senhor fez tão só e tão forte. Cada vitória, todas elas, eu também dedico a você, porque você foi uma peça importante demais nesse meu roteiro de vida. 

Eu encontrei uma máquina do tempo que não funciona mais, sim, uma de verdade, mas ela não funciona. Tentei de tudo, mas ela não funciona, infelizmente. Enfim, perguntei a várias pessoas para onde elas iriam, se para o passado ou para o futuro, e sabe para onde eu iria? Iria para fevereiro de 2010 quando cheguei em casa chorando por ter passado no vestibular, você levantou do seu almoço e me encontrou na sala de casa com todo aquele olhar de orgulho e admiração por mim, nunca esquecerei daquela sensação, daquele nosso encontro tão genuíno! Poderia ir também para aquele dia em que o senhor estava bebendo aqui na frente de casa e eu sentei ao seu lado e começamos a cantar alto um bocado de músicas aleatórias. Sem medo do amanhã! Eu iria para qualquer dia em que me fosse permitido te dizer gratidão por tudo e eu te amo. 

Você foi a minha primeira grande perda, vô! Dentre tanta coisa que o senhor me ensinou, essa foi uma das maiores lições: amar a pessoa enquanto temos tempo e buscar ser a nossa melhor versão antes que chegue o duvidoso e doloroso fim.

Eu te amo, como sempre.


50 tons de vermelho

Diante dessa luz baixa, dessa música instrumental de fundo, desse aperto leve e profundo no peito, diante de toda essa história que me veste e me alcança, diante de todos esses medos e faltas e vazios e ecos; diante dessa alma que ainda tem tanto para ser e expandir, diante de todas essas palavras repetidas e do clichê que é a vida, diante dessa rima pobre e desse ritmo puro: eu me rendo. E vou me rendendo com rendas coloridas e, seguindo por caminhos desconhecidos e familiares, remendos vão me cobrindo e me descobrindo mais forte. Sigo dando forma ao meu existir e me desconheço nos reflexos dos cacos de vidro espalhados pelo chão...

Há cansaço. Ando com todas essas feridas expostas ao sol. Vejo-me odiando o sol. Vejo-me questionando o seu papel na minha vida. Eu deveria ser a minha maior estrela... Não sei. Talvez eu nunca deixe de arder, talvez eu nunca deixe de doer, talvez a solução seja a eterna dúvida.

Se ao menos eu fosse congruente ou falasse a minha língua de forma fluente eu não iria aos lugares que não combinam com os meus passos, eu não falaria por meio de linguagens efêmeras, eu não deixaria o sol me arder, mas é tão difícil se manter sempre na sombra, entende? 

É necessário dar continente ao calor que vale a pena a ardência, pois existem fogos que formam queimaduras que duram uma vida, mas existem outros tons de vermelho que se assemelham ao fluxo de vitalidade que caminham firmes e persistentes pelos labirintos que constituem nosso corpo.

A vida não é sobre doer ou não doer. Sempre doerá. A questão é saber quais são os tons de vermelho que valem a ardência, entende? A questão é ter em mente qual fogo nos aquecerá.

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