As Caixas



É como se existissem dentro de mim caixinhas de imagens, sabe? Caixas que foram sendo preenchidas por imagens ao longo da minha vida. Desafios, idas à escola, medos, desejos, amores, perdas, quedas, comemorações... tudo o que acontecia e acontece exteriormente a mim, segue fazendo a festa aqui dentro da minha alma, deixando a devida imagem para simbolizar o tal momento.

Agora, nesse momento, grita em mim duas delas: a primeira contendo esse conteúdo mais ontogênico, aquela caixinha que contém minhas raízes, que eu sempre sentia latejando e a que todos ao meu redor colaboravam com uma imagem.Todo mundo dava vida a esta caixa, mas poucos, incluindo eu mesma, refletiam sobre seu real objetivo nas nossas existências. Sendo a segunda a mais autônoma, independente e fruto de vivências mais particulares.

Por essa primeira caixa ser ligada as minhas raízes, possui um conteúdo mais tatuado, mais colado, mais real, entende? É aquele tipo de coisa que te dá a sensação de ter uma identidade, de ser alguém: "eu sou assim... eu faço assim... eu amo assim... o certo é assim...", aquelas pequenas certezas que juramos ter ao longo da nossa caminhada existencial. Ilusão, talvez. 

Na primeira caixa não moram apenas as minhas imagens, mas também as da minha família, coleções e coleções de todo os seus  erros e acertos, os quais me pareciam a única realidade possível. Eu decalcava sem refletir e defendia, com toda a minha pouca experiência, tal modo de existir no mundo. Fui me construindo a partir de algo que não era meu e que me era ao mesmo tempo. Nunca é só nosso.

Enquanto a primeira caixa contêm as minhas raízes, na segunda repousam as minhas asas. Mas é difícil se permitir voar, é difícil. Porque a primeira caixa está ali te puxando para o chão, para a terra. 

Essa segunda caixa se caracteriza mais como uma produção independente. Imagens vão para lá depois de cada porta batida na cara, depois de cada planejamento mal sucedido, depois de algo que deu certo. Mais uma imagem bate na porta quando há uma conquista, quando uma poesia é perdida, quando um refrão não encontra a rima. 

Sim, existirão pessoas presentes que vão influenciar nessa segunda possibilidade. Mas, de uma forma ou de outra, essa segunda caixa é formada quando você sabe o que quer construir para a sua história. 

Com o tempo, você vai respeitando esse espaço tão novo, mas com tanta potência. Você vai percebendo que não precisa haver peso, nem haver mágoas... Você vai experimentando a leveza e vai se permitindo aprender com a história em que você é a protagonista. É meio louco, percebe? E talvez só eu perceba a loucura que falo, porque ela está dentro de mim. É a minha caixa que pulsa aqui. Ou melhor, as minhas, pois com o mesmo passar do tempo você aprende a trocar figurinhas com a caixa em que reside as suas raízes...

E você vai se equilibrando. Aprendendo a voar com as raízes que antes só permitia o rastejo. 

Com o tempo...
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