Imagine

Cá estou eu habitando outra casa e deixando-me habitar. Cá estou. E é tão estranho voltar à casa antiga, sabe? Eu volto lá e tudo permanece. Menos eu. É algo que nem consigo colocar em palavras, meu velho. É como se até mesmo eu fosse uma estranha a observar o lugar, observo de longe, mas ao mesmo tempo me vejo sendo observada por mim mesma dentro da casa. Consegue entender? A nova eu observando minha antiga pessoa ou algo assim. É possível sim ter esse olhar, conseguir estar e não estar. Enfim... vejo-me voltar ao meu berço, vejo-me andar pelos caminhos que andam em mim de tão conhecidos, de tão meus. 

Ando pelo estacionamento que me ensinou a andar de bicicleta e que foi espaço para tantas festas, tantos encontros e partidas. Na sala, mesmo sem ter o antigo espelho, ainda me vejo brincando no chão, ainda o sinto gelado, ainda sinto o desconforto, o alvoroço, ainda sinto você. Detalhes tão minuciosos que se não fosse o vazio não seria percebido, muito menos teria deixado saudade. Ainda sinto que parte de mim dorme naquela cama pequena, sem continente, aquela que se deixa transbordar. Mas a outra parte minha descansa tranquila na sua própria ilha. 

Tudo ali me preencheu. Tudo ali tem minhas marcas e tons. Também tem minhas maiores dores, perdas, medos e cicatrizes. Algo que, na primeira lida, pode parecer ruim, mas que dá um sentimento de pertencimento, sabe? É para as minhas dores que volto quando preciso de colo e isso incomoda sim, pois aquelas paredes não mais me sustentam, aqueles tetos não mais me abrigam, aquela descarga sanitária não faz desaparecer mais o que ali foi depositado, entende, meu velho? Tem coisas na nossa vida que simplesmente precisam deixar de ser rotina. Mesmo que machuque.

É importante se lançar nas novas possibilidades e continuar se lançando depois do primeiro voo livre. Não é necessário que se faça chover, entende? só se for para cultivar. Enquanto isso, segue deixando-se habitar.

Imagem Google





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