Ser papel

Quando a gente toca muito em um papel, toca muito e de verdade, ele muda, se transforma. 

De início, ele é liso, sem marcas nem falhas, rígido, plano, sem brilho e,  tampouco, histórias. 

Com o tempo, com os movimentos e pausas, ele vai ganhando nova textura, vai mudando o jeito, vai sendo preenchido por narrativas.

Amassado e cheio de cicatrizes, defende o que acredita, mas mantém sua maleabilidade, seu novo jeito de ser um quase tecido.

De tão marcado, vai perdendo os seus pedaços, deixando-os pelos vários caminhos percorridos.

Quanto mais se perde mais se reconhece mais tece mais é. Já não é só papel, já não é do tecido.

Já não é! Mas existe no sendo.

O papel carrega consigo vidas, vidas borradas, apagadas, reescritas... Vidas que permanecem mesmo quando o papel já não existe.

Lidas.

Vidas que muitas vezes precisam aprender a reescrever ou reaprender a escrever.

Ou simplesmente conseguir aguentar a existência de folhas em branco.

Livres.



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