Ilhar-se; tornar-se ilha.

Hoje ao mexer nas minhas coisas guardadas, nos meus diversos eus engavetados, me dei conta de algumas coisas. Primeiramente me dei conta que a mulher que sou nasceu a partir de várias mortes. De vários vazios. De vários nadas. Em seguida percebi o quando isso é bonito e se tornou bonito pelo simples fato de eu conseguir reconhecer isso, sabe? Comecei a ler umas coisas que petrifiquei há alguns anos e, para mim, aquelas palavras me vestiriam para sempre. Que ilusão. Fui lendo e me perguntando como naquele momento eu não percebia tantas coisas que hoje vejo de forma escancarada, como se antes eu fosse uma casa sem portas e nem janelas onde o vendo corria livre ao mesmo tempo que não passava nenhuma segurança. A casa estava aberta demais naquele tempo. E eu não tentava nem achar alguma porta. Como pude? Confesso que não consegui terminar de me ler. Fechei aquelas palavras e fiquei refletindo sobre. Em um segundo momento, agora depois de despir-me, lembrei de que antes muitas coisas que atormentam já fazia tremer a pequena ilha que sou e eu não as sentia, será que eu era ingênua ou só não me conhecia? Nenhuma das opções (ou todas elas). Hoje percebo que não era o momento, não era o meu tempo e tudo bem. Não perceber algumas coisas me ajudou a continuar minha caminhada, entende? E tenho tanto orgulho de todos os passos dados por mim, principalmente por esse passo do autoconhecimento. Talvez o mais difícil. Pois não é nada fácil perceber que muita coisa perdida aconteceu devido a mim mesma, devido ao meu mal jeito, devido a não saber administrar sozinha essa pequena ilha que sou. Não é tranquilo olhar para as minhas águas e ver que parte da poluição existente foi o lixo que eu própria juntei, mas tudo bem. Nada é tão definitivo que não possa se transformar, nem a própria morte. Eu li muita cobrança. Eu fui apenas cobrança. E hoje percebo que ninguém consegue ser uma pequena ilha sozinha. Para ser ilha, precisa-se de mar. Para continuar ilha, precisa-se das terras. Para ser uma ilha feliz, é importante umas árvores e suas respectivas sombras, porque ninguém é verão o ano inteiro. Para continuar ilha é necessário ser terra fértil. Hoje possuo mais medos do que os lidos nas páginas passadas, mas a diferença é que é um medo maduro, um medo meu, um medo que faz o possível para que a vida na pequena ilha que sou não seja extinta. E tudo bem. A ilha hoje grita, mas ainda há muitas terras desconhecidas nessa pequena ilha que sou.

Imagem Google

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